6 de outubro de 2020

os meus cinco minutos # 45

 Sísifo, o mais astuto dos mortais, enganou os deuses e a morte por diversas vezes, sendo condenado por Hermes a executar uma tarefa inglória: deveria transportar uma pedra de proporções hercúleas até ao cume de uma montanha. Não obstante, ao alcançar o cume, escapar-se-lhe-ia das mãos, irredutivelmente, deslizando até ao sopé do monte. Sísifo, todavia, recomeçaria a tarefa, sabendo-a, de antemão, vã e sem esperança de um dia conseguir terminá-la.

Recomecemos, nós, tal como Sísifo, se pudermos, sem angústia e sem pressa - diz-nos Torga. E os passos que dermos, nesse árduo caminho do futuro, dê-lo-emos em liberdade. Enquanto não alcancemos não descansemos. De nenhum fruto queiramos, por Deus!, só metade. E, nunca saciados, vamos colhendo ilusões sucessivas no pomar - uma e outra e outra! Sempre a sonhar e vendo, acordados!, o logro da aventura. Somos seres humanos, não nos olvidemos! Só é nossa a loucura onde, com lucidez pessoana, nos reconheçamos. Recomecemos...


os meus cinco minutos # 44

 É inquestionável que Os Maias encerram um pensamento e incitam a metafísica. Todavia, o seu objeto de reflexão não é mais do que o próprio Portugal enquanto personagem espectral que atua por detrás das personagens palpáveis. Trata-se de um país moribundo, irremediavelmente romântico e destinado ao falhanço, como a Geração dos Vencidos da Vida. E também é verdade que, na obra saramaguiana O Ano da Morte de Ricardo Reis, o protagonista é unicamente o ano de 1936. O heterónimo pseudopessoano é apenas um engodo, um pretexto para Saramago pôr o dedo na ferida de um Portugal doente que ele sabia de antemão que iria morrer. Se Reis morria ou não, parece-me que não é assim tão importante.





os meus cinco minutos # 43

 A Laurinha, da música “Dona Laura”, de Miguel Araújo, encontra similitudes inquestionáveis na personagem George do conto homónimo, de Judite de Carvalho. De facto, a Laurinha destemida e decidida, que diz que é crescida e que prescinde dos conselhos do pai, encontra ecos em George, que se revela uma mulher de personalidade vincada, também ela independente e autónoma, dona da sua própria vida. Sem dúvidas, nem receios, George segue o seu caminho, deixando para trás um passado que pretende, a todo o custo, esquecer. Longe da família, e lutando, acima de tudo, pela liberdade, constrói o seu mundo, muda a cor do cabelo, coleciona amores e vai vivendo em casas mobiladas, sem nada que a prenda a ninguém. Longe, sobretudo, do olhar inquisitivo e reprovador de uma mãe que lhe impinge um mundo de aparências que nunca foi das mulheres - daí o pseudónimo masculino. Ao contrário de Laura, George mostra-se economicamente independente, provando que conseguiu ser alguém na vida. Na realidade, metamorfoseando-se, torna-se o oposto do seu arquétipo maternal, pois não lhe bastava ter “um olho na novela/ E o outro na panela”. Não. Isso não lhe bastava. Cosmopolita, tornou-se numa mulher culta e prestigiada, “Toda cheia de cidade” e sem “Nenhum vestígio da miúda outrora santa e singela”, a Gi, com o alto pescoço de Modigliani. Tal como Laura ou o heterónimo pessoano, Ricardo Reis, George “dança até ser dia”, aproveitando o momento presente, numa atitude plena de “carpe diem”, pois o tempo passa, tal como o rio corre para o mar. Georgina sabia disso e nós também sabemos “Que há-de chegar a hora/ Que não poupa ninguém”, o único crime que não pode ser perdoado - a velhice - e, com ela, o vazio devastador que a consome. Nós sabemos, então, algo que George desconhece: que nada, nem mesmo o dinheiro guardado no banco, pode colmatar o espaço em branco deixado pela solidão gritante. Parece-me, pois, que o futuro de Laura será a contiguidade do presente da sua mãe; já o futuro de George será a desertificação resultante de uma infância que a não soube amar, nem compreender e que fez com que procurasse um futuro com conquistas e com prazo de validade.



os meus cinco minutos # 42

 Experienciamos uma instância histórica e social que poderá, eventualmente, num futuro próximo, condicionar o modo como concebemos o ato social – a consciencialização de uma pandemia a nível mundial, o COVID19.

A catadupa de acontecimentos inusitados e o seu impacto direto no nosso quotidiano faz-nos repensar a conceção que temos do meio circundante, bem como das escolhas que decidimos tomar nas nossas vidas. O que define a Humanidade e a separa da brutalidade de outras espécies é, precisamente, o compromisso social. Existimos, porque existimos em sociedade. Estoicismos à parte, o coletivo não nos é alheio. De facto, a atual pandemia veio expor a fragilidade humana, pôr o dedo na ferida, alimentar adamastores e mostrengos e medos insondáveis. Na sua democraticidade, o coronavírus é o denominador comum entre ricos e pobres, transpondo países e raças e questões de género com o mesmo desprezo e desdém. Entretanto, não nos resta outra opção senão isolarmo-nos entre quatro paredes e esperar que Salazares e Mussolinis e Francos passem, sem destruírem tudo à sua volta.
Então, a irrelevância de sermos humanos emerge. Afinal de contas, deparamo-nos com um facto inviolável: morremos. Por instantes, iguais no medo e na morte, todos nos ajoelhamos a Deus ou à ciência na ânsia de uma solvência célere e certeira. Fechados em casa, comprovamos, enfim, como estávamos distantes de nós mesmos e do que realmente importa. Reparamos que, se Deus existe, não habita nos cacarecos lá de casa nem tampouco nos facebooks.
À distância, descobrimos, com este vírus, que somos muito mais do que indivíduos isolados, embora nos tenhamos tornado meros observadores de uma vida que já não reconhecemos e que não sabemos se algum dia regressará.


28 de fevereiro de 2020

o sapatinho foi à rua # 514

Este tempo pede branco.
Desculpem lá, mas pede branco.
Não acham?

Os jeans por dentro das meias dão um ar descontraído.
A ganga deslavada e os ténis juntam-se à festa.

A família toda atrás.

O cão também.










camisola branca de malha: United Colors of Benetton
jeans brancos: H&M
ténis: Adidas
casaco de ganga: Salsa
óculos de sol: Ray Bain
mala: La Coste

27 de fevereiro de 2020

a cigana # 7

Senti-me confusa. Não me apercebi imediatamente da versão que o meu noivo lhes tinha contado, dado que não era a mim que me atingiam, mas sim a ele! Só mais tarde pude perceber que mentira! Mentira ao meu povo e ao seu e ao nosso, para que a minha reputação ficasse intacta, resguardada; para que pudesse continuar a ser uma mulher de respeito e condição. Mentira: não tinha sido eu a fugir para a cidade de cimento, não tinha sido desrespeitada por um branco que me violou e me largou pela encosta abaixo, junto ao rio; tinha sido ele próprio a rasgar-me e a abusar da situação, que se não tinha contido um dia antes do casamento e me apanhou e me violentou e me bateu, porquanto já tinha bebido além da conta e não sabia explicar mais.

Agora eu já era mulher.

O casamento fora adiado; ou mesmo cancelado. Não se falava mais no assunto. Por unanimidade, estabeleceu-se que o cigano tinha de partir, pois não era seguro, nem de confiança. O meu pai chegou, porventura, a ter intenções de lhe aplicar uma sentença mais mordaz, a de acabar com a sua vida logo ali, que não era vida para quem viola uma mulher e sai impune.
O cigano mantinha-se calado. 

Antes de prosseguir, peço as minhas mais sinceras desculpas, pois esqueci-me de o apresentar devidamente. A ele, ao meu prometido, ao homem desapaixonado e alheio que eu tanto repugnava, mas que agora me protegia com o próprio corpo a servir de  escudo; com a sua vida. Manuel era o seu nome. Mas não falemos de nomes. Um nome todos possuímos e não é, de modo algum, motivo de distinção ou de honradez. Posso dizer que se tratava de um homem calado, um homem de preto, de camisa aberta num decote despido. Um homem que trazia ao peito o amuleto que nos uniria para sempre; uma medalha incerta no balançar de um cordão. Um homem de barba negra e robusta; negra. Um homem bom.

Nesse instante, dei conta de que a vida real anda, impreterivelmente, de mãos dadas com os contos dos livros mágicos, que a minha história possui a mesma emoção e brilho que acompanha as princesas em apuros; um príncipe encantado que as salva de um dragão feroz, guardião da torre mais alta de um palácio do reino mais longínquo. Não um príncipe estereotipado, alto e forte e bonito e sedutor, de magnífica espada reluzente e um ágil cavalo alado, branco, com asas; mas um homem comum, respeitador, consciente, de bom coração; uma outra faceta, não encantada, mas encantadora, de um príncipe encantado; o meu.

26 de fevereiro de 2020

os meus cinco minutos # 41


Por este caminho, e com a crescente desmotivação dos alunos do secundário relativamente à disciplina de Português, dentro de alguns anos, arrisco afirmar, ninguém estará francamente disposto a conhecer os clássicos da literatura portuguesa e, muito provavelmente, os conceituados autores portugueses não serão mais da lei da morte libertados.
A literatura tem os seus dias contados e há quem assevere que Camões é dispensável, O Livro do Desassossego, de Pessoa, também e Padre António Vieira deverá ser exterminado (se o quisermos estudar, teremos de ir para o Brasil, o que é algo, assim, a puxar para o irónico).


- Não é o fim do mundo, por deus! Não vamos precisar disso para nada. – bocejam, aborrecidos, os alunos do secundário que escolheram a componente científica e rosnam quando são confrontados com Pessoas e Saramagos e o caneco.

 
O lirismo, não há dúvida, tem vindo a dourar os textos de referência da nossa civilização e é essencial para uma reflexão madura sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro. 
Esta renúncia aos clássicos resume-se a um punhado de vazios projetado meramente para a sobrevivência quotidiana e primária, sem cogitar o que supera a realidade tangível.


Posto isto, vamos fazer as contas.
Vivemos matematicamente absortos dos ideais que importam, valorizando bens materiais e superficiais, em detrimento do que é realmente fulcral, recusando o intelecto que apenas subsiste em nós. 


A simplificação do ensino e dos conteúdos programáticos não pode confluir no depaupero dos saberes, sob pena de se entorpecer o entendimento e a razão. A ideia de que a aprendizagem aprofundada dos escritores portugueses deveria ser abolida ou diminuída e sujeitar-se unicamente aos alunos de humanidades é grave. 


Muito provavelmente, o abandono do ato de interpretar e de analisar é um dos principais motivos da crise que atravessamos – que é cultural antes mesmo de ser económica, política ou social. 
Se tal se concretizar, a educação cultural dos portugueses virá a ser de uma verticalidade oca e a recessão portuguesa, juro-vos, não será apenas económica.

25 de fevereiro de 2020

o raio da bicharada # 51

Não sei se já vos aconteceu algo assim, mas, quando recebo visitas, é muito-muito-muito habitual pedirem-me autorização para tirar uma foto à  Sushi, para mostrarem lá em casa, à família.

Dizem que nunca viram um gato tão grande.

9kg bem pesadinhos.

Para quem não gostava de gatos...
<3

24 de fevereiro de 2020

caderneta de cromos # 26

No outro dia, um garoto de 12 anos virou-se para mim, muito sério, e disse: 

Oh, a professora é igualzinha à Bárbara da telenovela Nazaré!!!



Não conhecia a senhora-que-deve-ter-idade-para-ser-minha-filha-mas-enfim.
Nunca a tinha visto, nem mais gorda nem mais magra.

É por estas e por outras que amo a minha profissão.
Volta e meia, há comentários destes.

As crianças são incríveis, pá!

(autoestima lá em cima)

Bárbara, ou lá como é que te chamas, antes de mais,  quero que saibas que eu não tenho nada que ver com isto.
A ideia brotou unicamente da cabeça do garoto, sem qualquer tipo de chantagem da minha parte, ok?

Amigas?

23 de fevereiro de 2020

os meus cinco minutos # 40

A Farsa de Inês Pereira trata-se da mais famosa farsa escrita por Gil Vicente. Altamente satírica e hilariante, é nada mais nada menos do que a materialização do provérbio "Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube".
Através do recurso a personagens-tipo e ao cómico de linguagem, de caráter ou de situação, o dramaturgo pretende criticar a moça que manifesta uma ambição desmedida de promoção social, a mulher falsa que engana o marido, o Escudeiro pretensioso, autoritário e cobarde, o marido ingénuo e enganado, o Ermitão devasso que não respeita  a Deus, falso religioso, (comportamentos imorais por parte de elementos do clero), a Alcoviteira, Brígida Vaz, sempre interessada em promover uniões e os Judeus preocupados com o seu próprio umbigo (os excomungados, que, pelo pecado único de serem judeus, nem o Diabo os quis na sua barca, que fossem, antes, a reboque, pois então).

Ufa!

Deixem-me respirar um bocadinho, que este Gil Vicente não brinca em serviço.

Inês é uma jovem preguiçosa e idealista (não o são todas as adolescentes?) que anseia deixar o seu estado de solteira e a vida de "canseira" e de "cativeiro" que leva, valorizando a liberdade acima de tudo. Vê-se pressionada a casar com Pêro Marques, o "asno", lavrador simples e sem cultura, ingénuo, trabalhador, honesto, boçal (privado de inteligência), que não se sabe comportar e que representa, metonimicamente, um Portugal analfabeto, mas está encantada pelo galante combatente, Brás da Mata, que representa o "cavalo".  Elegante, mentiroso, desleal, pelintra, galanteador, cobarde e parasita, representa uma nobreza ociosa e sem valores.

Todavia, no meio de tanta degradação, é, sobretudo, a Inês Pereira que Gil Vicente decide apontar o dedo, antes ainda da pobre coitada ter feito qualquer decisão.

 A rapariga apresenta densidade psicológica e evolui ao longo da peça. "Muito fantesiosa", constrói uma imagem idealizada de marido: "Porém, não hei de casar senão com homem avisado, ainda que pobre pelado, seja discreto em falar". Para ela, o facto de escolher um marido pobre não era problema; o importante era que fosse inteligente e soubesse tanger viola, independentemente dos seus traços físicos: "Que seja homem mal feito, feio, pobre, sem feição, como tiver discrição, não lhe quero mais proveito. E saiba tanger viola e coma eu pão e cebola".

Na volta, digo eu, a Inês é bem menos exigente do que a maior parte do pessoal do século XXI, uma vez que a beleza para ela não era importante (outros valores mais altos se levantam), nem o dinheiro, mas sim a inteligência e a cultura.

Honestamente, não a critico. Gosta de homens inteligentes e cultos e o dinheiro não é o mais importante. Na prática, Inês revela ideais dignos de um Quinto Império.

Na realidade, aqui que ninguém nos ouve, a pobre da criatura estava tramada desde o início, pois Gil Vicente não lhe deu qualquer escolha minimamente decente, válida ou justa, que a conduzisse a um final feliz: ou casava com Brás da Mata por amor, sendo invariavelmente enganada, como se verificou, ou casava por dinheiro com alguém que, se remontasse aos dias de hoje, seria o típico animal, burro que nem uma porta, que come de boca aberta, arrota à mesa e diz palavrões, mais coisa menos coisa. Ingénua, também ela foi enganada, mas ninguém se chegou à frente para a defender, fosse por que motivo fosse, nem os Doze de Portugal.

No fundo, Inês representa todas as jovens mulheres da altura, enganadas por uma nobreza ociosa e arruinada, decorrente da centralização das riquezas provindas da expansão na corte.

Depois de ter sido "derrubada" pelo "cavalo", Brás da Mata, Inês, já que não pode ter um Richard Gere, escolhe a personagem que representa o "asno", o lavrador Pêro Marques, pois "Quero tomar por esposo quem se tenha por ditoso de cada vez que me veja. Por usar de siso mero, asno  que me leve quero, e não cavalo folão. Antes lebre que leão, antes lavrador que Nero" Inês Pereira, depois de ter sido iludida por Brás da Mata, prefere um marido "manso".

No final da peça, torna-se materialista, calculista e vingativa, aceitando o  destino e abraçando um ponto de vista redutor, fruto de um Portugal estagnado e moribundo.

É a hora?