Sísifo, o mais astuto dos mortais, enganou os deuses e a morte por diversas vezes, sendo condenado por Hermes a executar uma tarefa inglória: deveria transportar uma pedra de proporções hercúleas até ao cume de uma montanha. Não obstante, ao alcançar o cume, escapar-se-lhe-ia das mãos, irredutivelmente, deslizando até ao sopé do monte. Sísifo, todavia, recomeçaria a tarefa, sabendo-a, de antemão, vã e sem esperança de um dia conseguir terminá-la.
Recomecemos, nós, tal como Sísifo, se pudermos, sem angústia e sem pressa - diz-nos Torga. E os passos que dermos, nesse árduo caminho do futuro, dê-lo-emos em liberdade. Enquanto não alcancemos não descansemos. De nenhum fruto queiramos, por Deus!, só metade. E, nunca saciados, vamos colhendo ilusões sucessivas no pomar - uma e outra e outra! Sempre a sonhar e vendo, acordados!, o logro da aventura. Somos seres humanos, não nos olvidemos! Só é nossa a loucura onde, com lucidez pessoana, nos reconheçamos. Recomecemos...6 de outubro de 2020
os meus cinco minutos # 44
É inquestionável que Os Maias encerram um pensamento e incitam a metafísica. Todavia, o seu objeto de reflexão não é mais do que o próprio Portugal enquanto personagem espectral que atua por detrás das personagens palpáveis. Trata-se de um país moribundo, irremediavelmente romântico e destinado ao falhanço, como a Geração dos Vencidos da Vida. E também é verdade que, na obra saramaguiana O Ano da Morte de Ricardo Reis, o protagonista é unicamente o ano de 1936. O heterónimo pseudopessoano é apenas um engodo, um pretexto para Saramago pôr o dedo na ferida de um Portugal doente que ele sabia de antemão que iria morrer. Se Reis morria ou não, parece-me que não é assim tão importante.
os meus cinco minutos # 43
A Laurinha, da música “Dona Laura”, de Miguel Araújo, encontra similitudes inquestionáveis na personagem George do conto homónimo, de Judite de Carvalho. De facto, a Laurinha destemida e decidida, que diz que é crescida e que prescinde dos conselhos do pai, encontra ecos em George, que se revela uma mulher de personalidade vincada, também ela independente e autónoma, dona da sua própria vida. Sem dúvidas, nem receios, George segue o seu caminho, deixando para trás um passado que pretende, a todo o custo, esquecer. Longe da família, e lutando, acima de tudo, pela liberdade, constrói o seu mundo, muda a cor do cabelo, coleciona amores e vai vivendo em casas mobiladas, sem nada que a prenda a ninguém. Longe, sobretudo, do olhar inquisitivo e reprovador de uma mãe que lhe impinge um mundo de aparências que nunca foi das mulheres - daí o pseudónimo masculino. Ao contrário de Laura, George mostra-se economicamente independente, provando que conseguiu ser alguém na vida. Na realidade, metamorfoseando-se, torna-se o oposto do seu arquétipo maternal, pois não lhe bastava ter “um olho na novela/ E o outro na panela”. Não. Isso não lhe bastava. Cosmopolita, tornou-se numa mulher culta e prestigiada, “Toda cheia de cidade” e sem “Nenhum vestígio da miúda outrora santa e singela”, a Gi, com o alto pescoço de Modigliani. Tal como Laura ou o heterónimo pessoano, Ricardo Reis, George “dança até ser dia”, aproveitando o momento presente, numa atitude plena de “carpe diem”, pois o tempo passa, tal como o rio corre para o mar. Georgina sabia disso e nós também sabemos “Que há-de chegar a hora/ Que não poupa ninguém”, o único crime que não pode ser perdoado - a velhice - e, com ela, o vazio devastador que a consome. Nós sabemos, então, algo que George desconhece: que nada, nem mesmo o dinheiro guardado no banco, pode colmatar o espaço em branco deixado pela solidão gritante. Parece-me, pois, que o futuro de Laura será a contiguidade do presente da sua mãe; já o futuro de George será a desertificação resultante de uma infância que a não soube amar, nem compreender e que fez com que procurasse um futuro com conquistas e com prazo de validade.
os meus cinco minutos # 42
Experienciamos uma instância histórica e social que poderá, eventualmente, num futuro próximo, condicionar o modo como concebemos o ato social – a consciencialização de uma pandemia a nível mundial, o COVID19.
A catadupa de acontecimentos inusitados e o seu impacto direto no nosso quotidiano faz-nos repensar a conceção que temos do meio circundante, bem como das escolhas que decidimos tomar nas nossas vidas. O que define a Humanidade e a separa da brutalidade de outras espécies é, precisamente, o compromisso social. Existimos, porque existimos em sociedade. Estoicismos à parte, o coletivo não nos é alheio. De facto, a atual pandemia veio expor a fragilidade humana, pôr o dedo na ferida, alimentar adamastores e mostrengos e medos insondáveis. Na sua democraticidade, o coronavírus é o denominador comum entre ricos e pobres, transpondo países e raças e questões de género com o mesmo desprezo e desdém. Entretanto, não nos resta outra opção senão isolarmo-nos entre quatro paredes e esperar que Salazares e Mussolinis e Francos passem, sem destruírem tudo à sua volta.Então, a irrelevância de sermos humanos emerge. Afinal de contas, deparamo-nos com um facto inviolável: morremos. Por instantes, iguais no medo e na morte, todos nos ajoelhamos a Deus ou à ciência na ânsia de uma solvência célere e certeira. Fechados em casa, comprovamos, enfim, como estávamos distantes de nós mesmos e do que realmente importa. Reparamos que, se Deus existe, não habita nos cacarecos lá de casa nem tampouco nos facebooks.
À distância, descobrimos, com este vírus, que somos muito mais do que indivíduos isolados, embora nos tenhamos tornado meros observadores de uma vida que já não reconhecemos e que não sabemos se algum dia regressará.
28 de fevereiro de 2020
o sapatinho foi à rua # 514
Desculpem lá, mas pede branco.
Não acham?
Os jeans por dentro das meias dão um ar descontraído.
A ganga deslavada e os ténis juntam-se à festa.
A família toda atrás.
O cão também.
27 de fevereiro de 2020
a cigana # 7
26 de fevereiro de 2020
os meus cinco minutos # 41
25 de fevereiro de 2020
o raio da bicharada # 51
Dizem que nunca viram um gato tão grande.
9kg bem pesadinhos.
<3
24 de fevereiro de 2020
caderneta de cromos # 26
Nunca a tinha visto, nem mais gorda nem mais magra.
As crianças são incríveis, pá!
(autoestima lá em cima)
Bárbara, ou lá como é que te chamas, antes de mais, quero que saibas que eu não tenho nada que ver com isto.
A ideia brotou unicamente da cabeça do garoto, sem qualquer tipo de chantagem da minha parte, ok?
Amigas?
















