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1 de março de 2022

os meus cinco minutos # 57

Em Memorial do Convento assistimos a uma diáspora terrestre - a construção do convento de Mafra que nos atira, sobremaneira, para as ondas reminiscentes dos Descobrimentos. Um D. João V, megalómano, egocêntrico, tirano, será, certamente, o carrasco que três vezes chia, grosso e imundo; o nosso Adamastor ou o nosso Mostrengo que surge do mar de breu e nos faz tremer.

Contam-nos uma história que se mescla com a ficção e cujas linhas diegéticas se intercalam. 

Era uma vez um rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Saramago mitiga a imponência desta figura histórica a uma dimensão caricatural, sendo D. João V, muito embora, o paradigma expectável que lança os dados. O seu capricho irá gerar os maiores sacrifícios para que o seu sonho se concretize.

Era uma vez a gente que construiu esse convento, os trabalhadores de Mafra, o herói coletivo que atravessou tormentas e que desafiou o desconhecido, o povo cantado por Camões e Cesário Verde.

Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. A linha diegética do amor dá voz, agora, a Baltasar e Blimunda, uma só personagem que vive um amor puro, verdadeiro, marginal, transgressor, pois não respeita códigos sociais e basta-se a si próprio. Este amor contrapõe-se ao dos reis, em que o verniz estala numa corrida abrupta, assente numa relação meramente artificial que obedece às regras da corte. Não são mais do que dois estranhos que se encontram duas vezes por semana para cumprirem o seu dever: dar um herdeiro à coroa.

Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido e que traça a linha da construção da passarola ou da ciência. Padre Bartolomeu, personagem também ela transgressora, como, aliás, tudo nesta obra, é perseguido pela Inquisição, devido à modernidade do seu espírito científico e à subversão do seu comportamento anticanónico. É uma cárie dentro da igreja, questionando os dogmas eclesiásticos. Formou uma "santíssima trindade" para poder concretizar o seu sonho de voar e arrasta-nos com ele, convidando-nos a acreditar.

Seria nesta esfera que deveria entrar Domenico Scarlatti, uma personagem tímida e envergonhada que permanece discreta, quase só respira, quase só murmura. Seria, eventualmente, uma nova linha de diegese que ninguém deu conta e que pareceu escapar aos mais atentos, a linha das Reflexões do Poeta ou a linha do Encoberto. Figura incómoda para o poder, pela liberdade de espírito e pelo poder libertador e subversivo da sua música, este cúmplice silencioso será um Bandara que anuncia um Quinto Império. A música de Scarlatti inspira os construtores da passarola e cura Blimunda da sua estranha doença causada pela exaustão na recolha das duas mil vontades. O cravo do italiano e a sua música simbolizam o ultrapassar por parte do ser humano de uma materialidade excessiva e o atingir  da plenitude da vida. A ciência e a arte são reveladoras de um espírito de inovação, de tolerância e de abertura ao progresso e à modernidade, tão certo quanto D. Sebastião regressar numa manhã de nevoeiro montado num cavalo branco, entre sombras e dizeres.

Valete Fratres.




24 de novembro de 2021

os meus cinco minutos # 56

 Sempre que olho para as fotos das cheias em Veneza, penso que a vida deveria ser assim. Perante as adversidades, é importante continuar a viver e a acreditar e a sonhar. Um dia de cada vez, como se nada fosse. Sim, temos um elefante na sala; é óbvio, mas vamos lidar com isso da melhor maneira possível.




26 de outubro de 2021

os meus cinco minutos # 55

        A ironia e a crítica e o escárnio e o maldizer são o pão nosso de cada dia nos dias de hoje. Porém, felizmente, sempre existiram e sempre vão existir. São uma forma de exorcização e expurgação dos males da sociedade e ajudam-nos a compreender o que nos circunda, a distinguir o bem do mal e a lutar por aquilo em que acreditamos. É o sentido crítico que nos faz ser humanos e nos faz lutar a favor do livre-arbítrio. Ser livre é poder falar.

A nostálgica, antiquíssima e simplíssima poesia trovadoresca foi remotamente cultivada por trovadores na zona norte da Península Ibérica, nos reinos de Portugal, Galiza, Castela, Leão e Aragão, entre os séculos XII a XIV. A vida económica medieval nesta época baseava-se quase exclusivamente na agricultura, sendo que a estrutura social resultava das formas feudais de senhor e vassalo. A sociedade encontrava-se, assim, estratificada em três ordens: clero, nobreza e povo. Entretanto, como sabemos, a literatura, inicialmente, não nasceu para todos; somente para alguns, os mais abastados e ociosos. O povo estava demasiado ocupado a trabalhar e a tentar sobreviver.

A designação trovador é de origem provençal e designa os autores e intérpretes que introduziram nas cortes composições poéticas de índole amorosa acompanhadas de música. A poesia medieval surgia, desta forma, associada à música e ao canto e animava os serões da corte, sendo que o idioma por excelência do lirismo peninsular era o galego-português.

A sátira medieval existiu, de facto, e concretizou-se nas cantigas de escárnio e de maldizer que versavam temáticas diversas da atualidade medieval, nomeadamente, a crítica de costumes. A paródia ao amor cortês revia-se na sátira à morte de amor e na crítica à hiperbolização das qualidades da mulher amada. Por conseguinte, as temáticas mais versadas pelas cantigas de escárnio e de maldizer eram de natureza satírica e podiam estar relacionadas com acontecimentos políticos, sociais, culturais. Na sátira medieval o recurso expressivo mais utilizado era, então, a ironia. Nas Cantigas de Maldizer, a crítica era realizada aberta e diretamente; nas Cantigas de Escárnio havia uma sátira indireta. Estas últimas mesclam-se direta e inequivocamente com a alegoria associada ao Sermão de Santo António aos Peixes de Padre António Vieira, séculos adiante.

No seu significado etimológico, alegoria significa dizer uma coisa por outra. Por exemplo, a justiça é representada alegoricamente por uma mulher de olhos vendados que segura uma balança nas mãos, já a paz é figurada por uma pomba, ou a crueldade por um tigre. Assim, o funcionamento da alegoria é fundamental na interpretação dos textos que representam e comunicam significados ocultos de ordem religiosa, moral ou política.

Logo, a escolha da alegoria para o Sermão foi mais do que óbvia. Foi necessária e imprescindível. Emergente até, sendo que esta obra surgiu no fatídico século XVII. Foi neste mesmo século que Portugal vivenciou o desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer Quibir e a consequente perda da independência e domínio filipino (1581-1640) que incapacitaram e castraram Portugal na sua mais verdadeira essência. O poder da Inquisição ajudou à festa e o Barroco, arte lindíssima que vigorou em Portugal durante todo o século XVII e na primeira metade do século seguinte, deixou-nos um custo demasiado alto a pagar. O Barroco veio para intimidar, para fazer tremer as alminhas todas e fazer cair os santos do altar. E conseguiu-o. Daqui adveio, todavia, uma deliciosa teatralidade, os contrastes (luz e sombra), o movimento e o exagero decorativo, de modo a provocar o êxtase e a emoção, que eram conseguidos na perfeição.

O Sermão assenta numa alegoria, pois através dos peixes, o orador critica os seres humanos, mencionando as suas virtudes e os seus defeitos. As virtudes dos peixes são, por contraste, a metáfora dos defeitos humanos (“Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens!”). Os defeitos dos peixes são também enunciados, sendo o maior deles o de se comerem uns aos outros (“Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós.”), manifestando-se a crítica à exploração social. São quatro os peixes evocados: os Roncadores – personificam a arrogância: “É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?!”; os Pegadores – representam o parasitismo/oportunismo: “ […] sendo pequenos, não só se chegam aos outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram”; os Voadores – simbolizam a ambição desmedida: “Não contente com ser peixe, quiseste ser ave […]”; e o Polvo – encarna a traição e a hipocrisia: “[…] monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!”.

Padre António Vieira foi uma das mais influentes personalidades do século XVII, destacando-se pela sua intervenção política e pela sua ação missionária. Foi igualmente, permitam-me dizê-lo, um trovador dos seus tempos. O padre era mestre na arte da eloquência – docere, delectare, movere -, pois falava bem; mais, falava em público de forma estruturada e deliberada, com a intenção de informar, persuadir ou entreter os ouvintes. As funções da sua oratória eram senão arrebatar ou deleitar, ensinar e moralizar e mover ou influenciar o comportamento do ouvinte, incentivando-o à ação. 

O Sermão foi o género literário que escolheu para o seu discurso oral dirigido a um auditório. O propósito era moralizador. Contra factos não há argumentos. No exórdio, e tendo como ponto de partida o conceito predicável (vós sois o sal da terra), o orador diz que a “terra” está corrupta, mas reconhece que o mal não está só do lado dos pregadores. Os ouvintes também têm culpa. Santo António é apresentado como exemplo do bom pregador, como modelo a seguir para moralizar os ouvintes (a terra). Diz Padre António Vieira: “Santo António foi o sal da terra, e foi o sal do mar”. Todo o sermão é, pois, um panegírico em torno da sua figura. Assim, à semelhança deste santo, também o Orador irá pregar aos peixes, já que os seres humanos não o ouvem: “ […] quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes […]”.

Ao longo do discurso, na Exposição/ confirmação, Padre António Vieira interage com os seus ouvintes e tenta perseguir os grandes objetivos do Sermão: ensinar – moralizar; agradar – cativar os seus ouvintes, despertando as suas emoções; e persuadir – apelar e convencer da necessidade de mudança através de uma argumentação sustentada.

No momento de comprovação ou demonstração das afirmações apresentadas, para defender a sua tese, recorre a vários tipos de argumentos ilustrativos e convincentes: de autoridade – as citações bíblicas, por exemplo; proverbiais ou de sabedoria popular; por analogia – argumenta a partir do exemplo de Santo António; por experiência – invoca a sua vivência; e históricos – recorre a exemplos da tradição histórica.

O Sermão é, desta feita, uma sátira social. Padre António Vieira critica a exploração e a ganância humana, particularmente aquela que é exercida pelos colonos sobre os índios. À persuasão, fim último do Sermão, associam-se as intenções de instruir e de deleitar. Assim, a escrita de Padre António Vieira é marcada por um grande virtuosismo. Os recursos expressivos mobilizados, a construção frásica rigorosa e a riqueza vocabular reforçam o seu estilo lógico e engenhoso. Além doa mais, a sedução dos seus raciocínios e o seu tom combativo tornam Padre António Vieira um escritor ímpar.

Em suma, as Cantigas de Escárnio e Maldizer, bem como o Sermão de Santo António aos peixes são uma crítica subtil e entredentes de quem usa uma máscara para poder exprimir-se e expor uma realidade “fea, velha e sandia”. A dissimulação e as meias verdades são um recurso que, por vezes, temos de usar num mundo em que não podemos, muitas vezes, dizer tudo aquilo que queremos. Esta forma de arte é essencial para incitar a reflexão e levar a uma tomada de posição. No fundo, é uma forma bonita de mostrar uma realidade crua e cruel. No século XXI, em Portugal, as alegorias, felizmente, são apenas formas de grande beleza, pois escolhemos ser livres. Critiquemos com os livros, o teatro, as stand-up comedies, os memes, as anedotas, e mais, muito mais. Continuemos a fazer arte, de uma maneira ou de outra.


27 de fevereiro de 2021

os meus cinco minutos # 54

 

O Mosteiro da Batalha faz parte do Património Mundial da UNESCO e é certo que a Lenda da Abóbada integra, invariavelmente, o nosso património imaterial e onírico. 

A importância da defesa do que é nacional é aqui corroborada, já que a edificação do Mosteiro da Batalha, nomeadamente da abóbada, é, senão, a construção de uma epopeia, desta vez, terrestre e não marítima. Logo, Os Lusíadas, de Luís de Camões, representam a gesta dos Descobrimentos num plano mítico e grandiloquente, assim como A Abóbada, de Alexandre Herculano, encerra em si o espírito epopeico de cruzada: a materialização do Império Português. Vasco da Gama será o herói individual da primeira obra, representante de todo um saber, sendo que o cego, de aspeto venerável e pensativo, sentado “sobre um troço de fuste”, será, inequívoca e inevitavelmente, o herói da segunda. O velho Afonso Domingues, que lutou ao lado de el-rei na bendita batalha, de ânimo rico de alto imaginar, mergulhado em meditações profundas, de maçãs do rosto elevadas e o perfil do rosto quase perpendicular, simbolizando o espírito inabalável, será, pois, o desbravador dos mares e de adamastores e de mestres Ouguets. 

Claro que o povo português continua a ser o herói coletivo, nobre e lutador, competente, disposto a morrer de forma exacerbada por aquilo em que acredita, desafiando tudo e todos, o próprio destino, com um sentimentalismo romântico que o levará para além do mundo terreno, em Naus a haver.

23 de fevereiro de 2021

os meus cinco minutos # 53

 O conto “O Acidente” de Gao Xingjian retrata um acidente de trânsito ocorrido numa rua da China, em frente a uma oficina de conserto de rádios. Primeiramente, o escritor descreve os acontecimentos que antecederam o mesmo: as pessoas que caminhavam pelas ruas; um homem de bicicleta com um carrinho de bebé preso à frente, pedalando diagonalmente pela rua; os carros que por ali circulavam; e o autocarro que vinha do lado contrário sem parar. Finalmente, quando o homem da bicicleta segue em direção ao autocarro, o motorista começa a travar, mas não conseguiu parar a tempo, atingindo-o fatalmente. Temos a perceção de que, quando o homem da bicicleta viu que o autocarro o ia atropelar, empurrou propositadamente o carrinho do bebé para fora do caminho, para, assim, poder salvá-lo. Após o autocarro ter embatido no homem, a bicicleta ficou completamente destruída, mas o bebé sobreviveu.

Este conto começa com uma descrição pormenorizada da cidade, como se o escritor nos levasse a percorrer uma metrópole asfixiante e castradora, à hora de ponta, fazendo-nos mergulhar num universo idêntico ao de Cesário Verde, o observador acidental. Também nós nos damos conta da falta de solidariedade presente em algumas falas dos transeuntes que representam a cidade anónima e disfórica:“- Ele procurava a morte. Nem com as buzinadelas e travagens deu passagem e atirou-se claramente para debaixo do autocarro… - retorquiu uma mulher que usava mangas de alpaca, uma revisora que acabava de descer do autocarro. “

Ainda o desprezo pelo outro se torna nítido quando alguém comenta “- Eu só quero é passar também.” Desta forma, o sentimento de clausura que a cidade provoca acaba por ser o palco de um acidente mortal, em que a vítima não conseguiu, também ela, escapar a este espaço exíguo, que a confinava a uma existência sufocante. Assim, a cidade, símbolo do desenvolvimento e do progresso, aparece como uma Babel opressora, paradigma de todos os males e promotora de um individualismo gritante. Este tipo de comportamento é, muitas vezes, frequente em meios onde as pessoas não se conhecem, como é o caso das grandes cidades: “Nesta cidade de vários milhões de habitantes, só a família e alguns amigos próximos deviam saber quem era e, neste momento, certamente nem estavam ao corrente do sucedido, sobretudo se o defunto não tivesse consigo qualquer documento que permitisse a sua identificação.”

O final do conto é, na minha opinião, um pouco desconcertante. Tudo cai no esquecimento, como se nada tivesse acontecido, como se os sentimentos e as pessoas não fossem importantes numa cidade fria, artificial e opressora que agoniza o leitor, por se encontrar impotente e não conseguir levantar-se e mudar o rumo da história: a morte é, assim, inexorável e a esperança não parece ser alcançável.

19 de janeiro de 2021

os meus cinco minutos # 52

 “Vicente” é um conto que faz parte da obra Os bichos, de Miguel Torga. Altamente simbólico, sugestivo, provocador e interventivo, “Vicente” lança uma mensagem de conforto e de esperança numa altura em que o Estado Novo chicoteava Portugal e em que o povo necessitava, como de pão para a boca, de poder acreditar na sua liberdade e num futuro, quiçá, risonho.

Assim, neste conto, o Senhor reconheceu que a maldade do ser humano na Terra era incomensurável, que, inevitavelmente, todos os seus pensamentos e desejos pendiam única e inexoravelmente para o mal. Amargamente arrependido de ter criado esta espécie sobre a face da Terra, o Criador sofria. Nisto, Deus omnipotente e Deus omnipresente, eis que decide eliminar o produto, corrompido, fruto da sua criação e dos seus devaneios. Então, o Senhor disse: «Eliminarei da face da Terra o homem que Eu criei, e, juntamente com o homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feito».

Noé, no entanto, era um homem justo e perfeito, entre os homens do seu tempo, e escapava ileso a todo esse ato acusatório, a toda uma censura encerrada e lacrada a lápis azul.

Então, Deus disse a Noé: «Constrói uma arca de madeiras resinosas. Dividi-la-ás em compartimentos e calafetá-la-ás com betume, por fora e por dentro. Hás de fazê-la desta maneira: o comprimento será de trezentos côvados, a largura de cinquenta côvados e a altura de trinta côvados. Ao alto, farás nela uma janela, à qual darás dimensão de um côvado. Colocarás a porta da arca a um lado, construirás nela um andar inferior, um segundo e um terceiro andar, pois vou lançar um dilúvio, que inundando tudo, eliminará debaixo do céu todo o ser animal, com sopro de vida».

Ordenou implacavelmente!

E Noé assim o fez, cabisbaixo, fraco, humano, submisso, sem questionar, rompendo-se, logo ali, todas as fontes do grande abismo, e abrindo-se as cataratas do céu. Naquele mesmo dia, Noé entrou na arca com Sem, Cam e Jafet, seus filhos, sua mulher e as três mulheres dos seus filhos; juntamente com eles, entraram ainda os animais selvagens segundo as suas espécies, os animais domésticos segundo as suas espécies, os répteis que se arrastam pela Terra, segundo as suas espécies e todos os animais voláteis, todas as aves, tudo quanto possui asas, segundo as suas espécies. A chuva caiu, torrencial, injusta e agressiva, sobre a Terra, durante quarenta dias e quarenta noites. As águas cresceram, sedentas, e levantaram a arca, que foi elevada por sobre a Terra. Iam engrossando, turbulentas, subindo muito acima da Terra. A arca flutuava à superfície e ZÁS! todas as criaturas que se moviam na Terra pereceram.

Assim.

Assim o conto.

Assim o ponto de partida: o castigo de Deus devido à maldade do ser humano.

Assim: Deus ter decidido castigar as suas criaturas devido à corrupção reinante, fazendo com que um dilúvio caísse sobre a Terra.

Deus é grande e é pai e é magnânimo - como António de Oliveira, aliás - por isso, iria preservar Noé e seus filhos e cada par de animais existentes, fazendo-os embarcar na Arca.

Decorridos quarenta dias, não obstante, Vicente decidiu fugir.

As pessoas e os animais presentes na Arca assistiram à partida de Vicente com «respeito calado e contido», ll. 20-21. Quando Deus perguntou pela primeira vez a Noé onde estava Vicente, todos «ficaram petrificados» pelo medo, l. 29.

Os sentimentos de «angústia», l. 68, e de humilhação – «fauna desiludida e humilhada» - persistiam naquela arca malfadada, pois não era certo, não senhor, lobos coabitarem com cordeiros, traindo a sua natureza e, pior!, o seu instinto.

Vicente - nome de homem - que simboliza aquele que decide libertar-se das amarras do fascismo e do Estado Novo, acaba por ser a chama que a todos alumia; seria ele o responsável pelo alento dos seus corações e pela liberdade que poderia dali advir.

Então, Deus e Vicente lutaram e esbracejaram frente a frente.

Travavam, agora, uma luta desigual; Vicente, onde já se viu?, um pequeno e frágil corvito de nada, a desafiar um Deus Todo Poderoso? O ser humano contra o Estado Novo! A escravidão contra a liberdade!

Onde já se viu?

O «pequeno penhasco», que, embora não passando disso, era, então, uma promessa de Terra, do fim do sacrifício de 40 dias na Arca.

Os seus passageiros, admirados e felizes por constatarem o ato de rebelião de Vicente – afinal um deles! – acreditavam, ainda que a medo, acreditavam que as amarras seriam quebradas e que o corvo os vingaria da provação sofrida.

Deus - vingativo, arrogante, temerário - para obrigar Vicente a regressar à Arca, fez com que as águas subissem de modo a quase taparem o pequeno penhasco sobre o qual o corvo estava pousado; mas Vicente, apesar de fustigado pelas águas mandadas pelo Senhor misericordioso, resistiu de tal modo, com tal coragem, com tal vontade de ser livre, que Deus cedeu e as águas desceram, obedientes.

Vicente venceu.



30 de novembro de 2020

os meus cinco minutos # 51

 A igualdade de género no Judo no âmbito da comemorando do 40º aniversário do 1º Campeonato do Mundo Feminino, acompanhando as iniciativas da FIJ e as ações da Comissão de Mulheres & Desporto do Comité Olímpico

 

 Hoje em dia, é complicado e até perigoso ou tendencioso dizer que se é feminista. Sou antimachista. Sou antifemista. Sou, portanto, feminista. Não quero ser mal interpretada. Sou mulher. Sou mãe. Sou filha. Já fui neta. Não sou Judoca, mas sou mãe de um Judoca e sou esposa de um Judoca e, de alguma forma, acabo por viver e respirar o Judo de uma maneira muito intensa e vívida.

Não há dúvida de que o preconceito e a igualdade de género andam de mãos dadas. Existem, invariavelmente, padrões estereotipados relativamente a ambos os géneros e, mais especificamente, no que toca à prática de modalidades desportivas. É tão claro como água que é suposto os meninos gostarem de luta e as meninas gostarem de ballet. Na realidade, Billy Elliots há muitos  e, num desporto como o Judo, acredito mesmo que o preconceito tende mais para o género masculino do que para o género feminino. Se uma rapariga gostar de Judo, é fixe; todavia, se um rapaz gostar de ballett já é um cabo dos trabalhos e aí a história é outra.  

Verificamos, então, que há expectativas inerentes e castradoras que nos acompanham desde sempre, existindo mecanismos sociais de codificações previamente definidos antes mesmo de nascermos. Comprovamos um inegável ênfase crescente do cor de rosa para as meninas e do azul para os meninos. Sentimo-nos assoberbados com roupa, brinquedos, postais de aniversário ou mesmo papel de embrulho com cores distintas consoante o género. As diferenças existem.  E ainda bem. Apenas cabe a todos respeitá-las.

Encontramos, inegavelmente, situações de disparidade no seio da sociedade e no desporto, sobretudo, no desporto que move massas e que lida com salários discrepantes. No plano dos dados concretos, em relação ao Judo, não encontro situações ainda que ténues de desigualdade. Acredito que os treinos são organizados de forma a contemplar a abordagem de algumas vertentes do Judo que se coadunam com a condição feminina das atletas. Além do mais, os treinadores parecem-me preparados para a especificidade da mulher/rapariga atleta e penso que, na progressão traduzida nas graduações, existe o cuidado de tratar de igual forma os jovens praticantes nos acessos às etapas superiores.

Devido ao número reduzido de atletas femininas, os treinos são, frequentemente, mistos. Assim, muitas vezes, no tatami, o trabalho é realizado com grupos ecléticos, o que não me parece algo necessariamente negativo; antes pelo contrário, poderá ser um privilégio e uma vantagem treinar com alguém eventualmente mais forte, do género masculino. Se os treinadores devem treinar rapazes e as treinadoras treinar as raparigas? Esta não me parece uma questão válida ou pertinente para o desenvolvimento do Judo em geral.  Não me parece também que a indumentária das árbitras seja algo tão decisivo no que concerne à igualdade de género; ter outras opções que atendam a um visual não masculino não me parece incontornável. A indumentária segue toda uma tradição e isso nada tem que ver com preconceito.

 

Acredito, sim, que se justificam os incentivos específicos ou formas de acompanhamento peculiares para que jovens raparigas em fase de crescimento mantenham a sua relação com a modalidade e ultrapassem as barreiras que as afastam do desporto e do Judo em particular. Na minha opinião, atletas femininas afetas a projetos olímpicos e às seleções nacionais poderiam envolver-se com a comunidade e quebrar o tabu do Judo feminino que assenta na ideia de que esta modalidade se destina unicamente a rapazes.

Julgo que o preconceito está encerrado dentro de cada um de nós e, realmente, não  consigo encontrar o preconceito no Judo, de uma forma geral e sistemática, enquanto bicho-papão. Sobretudo no Judo. Esta é uma modalidade que prima pelo respeito e pelos valores a si inerentes, tais como a amizade, a honra ou a cortesia.

                No Judo, os balneários são diferentes para cada género. Esta é das poucas diferenças válidas que encontro no Judo. Não vamos criar macaquinhos no sótão, certo?


in Judo Magazine



7 de novembro de 2020

os meus cinco minutos # 50

Cuidado! 

Vêm a Nau Cobiça e a Nau Soberba, agachadas, sorrateiras, e, tal como o amigo-peixe-falso-hipócrita-como-tantos que a Fada Oriana encontrou no seu caminho, atrevem-se, cegam-nos, mostram-nos espelhos, reflexos; enchem-nos o ego, lisonjeiam-nos, sopram-nos as velas que incham – como incham! - e, neste momento, já não nos basta o mar, não!, queremos o ar também.

Comuns mortais, fracos!, esquecemo-nos de que podemos ser presas fáceis da fisga e do anzol. Cedemos, irremediavelmente, e, então, perdemos as asas que levámos uma vida inteira a construir – bestial - e esperamos, impacientes, que haja uma velha que se atire no abismo para que nos redimamos desta vida desgraçada e talvez nos apercebamos daqueles que nos lixam e que, felizmente, vamos deixando para trás - besta.


2 de novembro de 2020

os meus cinco minutos # 49

 Vamos sonhar e lutar por aquilo em que acreditamos?

Vamos criar Ilhas extremas do Sul, terras de suavidade que vingam em tempos bons, menos bons e desafortunados?

Vamos criar o nosso Palácio da Ventura, em que as portas, desta vez, se abrem ante os nossos ais?, e em que dentro não existe vazio; somente luz e brilho?

Vamos deixar de esperar por sebastianismos pacatos e acomodados e vamos criar, efetivamente, o Quinto Império sem messias que nos venham salvar?

Assim, não choverá dentro de nós e conseguiremos a alegria de um céu azul e plácido, como o de lá de fora!

Deixemos de lado pessimismos e usufruamos de uma recompensa justa pela nossa demanda diária: o nosso Canto IX, a nossa Ilha dos Amores, mas sem ninfas seminuas, por favor!, nem caças inglórias. 

Apenas o conceito do amor e da igualdade de género do século XXI! 

Vamos lutar por aquilo em que acreditamos?

Vamos?


25 de outubro de 2020

os meus cinco minutos # 48

Segundo Fernando Pessoa, os efeitos da “dor de pensar” encontram-se resumidos em dois versos de uma das suas quadras populares: “Porque é que p’ra ser feliz/ É preciso não sabê-lo?”. Já Manuel António Pina discute de uma forma mais pragmática a essência da felicidade, chegando à conclusão de que o PIB não é, de todo, um índice fiável de felicidade. Nisso estamos de acordo.

De facto, Pessoa não consegue ser feliz devido à sôfrega intelectualização do real, não conciliando aquilo que deseja com aquilo que realiza, gerando, pois, uma frustração e um consequente drama de personalidade. É, então, impedido de ser feliz devido à lucidez, procurando a realização do paradoxo de ter uma consciência inconsciente. Todavia, ao pensar sobre o pensamento, percebe o vazio que não lhe permite conciliar a consciência e a inconsciência. Gostava, muitas vezes, de ter a inconsciência das coisas ou de seres comuns que agem como a “pobre ceifeira” ou que cumprem apenas com as leis do instinto, como o “Gato que brinca na rua”. Logo, o ortónimo não consegue fruir instintivamente a vida por ser consciente, mas também pela própria efemeridade da mesma. Assim, a efemeridade do tempo, enquanto fator de desagregação desperta-lhe o desejo vívido de ser novamente criança, sentindo a nostalgia da infância como um bem perdido, “Criança contente de nada”. Tal leva-o à desilusão perante a realidade da vida e do próprio sonho. Neste sentido, “para se ser feliz é preciso saber-se que se é feliz”, pois “Não há felicidade em dormir sem sonhos.” Para Pessoa, não há dúvida de que “Saber é matar, na felicidade como em tudo. Não saber, porém, é não existir.”

No meu parecer, a felicidade – aquela que se afasta da ingenuidade pueril e inviolável da infância estéril - pode ser algo consciente, matéria palpável e altamente transmissível. Ela surge nos pequenos momentos do dia a dia. Surge da partilha. Surge nos sorrisos trocados com os outros, ou quando nos reunimos com a família.  Não será a felicidade uma evolução do pensamento eunuco dos petizes, a materialização dos sonhos e das conquistas e a consciencialização de alguma volatilidade? O que é, aliás, a felicidade, senão a subjetividade dos olhares alheios? 

Existamos, enfim!, em consciência!

19 de outubro de 2020

os meus cinco minutos # 47


A condição da mulher na sua relação com as figuras masculinas tem vindo a ser desvalorizada e subjugada por cânones totalitários e redutores previamente estabelecidos na literatura, ao longo dos séculos.

Retratada pelos escritores românticos como um ser distante e idealizado pelo amante, a mulher circunscrevia-se, essencialmente, ao ambiente doméstico ou poderia, quiçá, servir como adorno em ambientes sociais, contígua à própria existência masculina. Além do mais, o papel de esposa e mãe virtuosas estaria ainda, indelevelmente, interligado com um estereótipo de beleza ideal, regido por elevados parâmetros petrarquistas, como podemos comprovar, aliás, desde a poesia trovadoresca, resultando numa objetificação óbvia e indiscutível deste género.


Em Os Lusíadas, podemos testemunhar a presença feminina enquanto parte integrante da existência do próprio homem: ventres maternos, esposas e irmãs do peito lusitano que se distinguiu pelos seus feitos valorosos. No canto IX, na Ilha dos Amores, a exploração do corpo feminino como recompensa de atos heroicos faz-nos acreditar que as mulheres eram meros corpos inabitados com o propósito de serem avidamente consumidos e descartados.


Relativamente a Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, também esta obra, que se insere no Romantismo Português, reforça o ténue papel da mulher na sociedade de então, sendo a sua idealização emoldurada por Teresa. Nesta crónica de mudança social, critica-se uma sociedade retrógrada e repressora, assente em  desigualdades, a começar pela discriminação de géneros e pela insignificância social do elemento feminino. De facto, podemos verificar que Teresa, enquanto mulher, não tem muitas opções de escolha: ou casa com o primo ou vai para o convento.

Da mesma forma, em Frei Luís de Sousa, a mulher, neste caso Madalena de Vilhena, é, mais uma vez, demasiado sentimental e pouco racional, comparativamente ao homem. Logo, o temor a Deus encontra voz no género feminino, retratado como originariamente pecador e submetido ao género masculino. Frágil e delicada, perante Telmo e deus, Madalena revela-se pecadora, adúltera e traidora, submetendo-se ao poder masculino de forma subserviente. 
Torna-se claro que a ideologia dominante masculina tem como porta-voz Telmo, mas encontra-se igualmente presente no discurso da própria D. Madalena, edificando-se, desse modo, a crise identitária da personagem. “Aquele estado” e o perdida “não sei de quê” são fórmulas vagas que representam um descontrolo físico e emocional que vem justificar, mais uma vez, a inquestionável fraqueza feminina. A sua morte simbólica, no final, confirma a perda de identidade da mulher que ousou seguir o impulso da paixão, desvinculando-se do elemento masculino e aniquilando-se, assim, pela imposta ordem dominante.


Estas obras permitem-nos, assim, uma reflexão sobre a conjuntura feminina ao longo dos tempos num diálogo aceso com a figura masculina, dela resultando a sua inegável subjugação. 


Partindo das obras referidas, podemos fazer uma sólida analogia com o cartoon O jogo dos Galos, de José António Santos Corte Real, de 2007, in Desigualdades e Preconceitos. 

Neste cartoon, observamos o Jogo do galo, em que a totalidade dos quadrados se encontra preenchida com o símbolo genético masculino de cor azul, à exceção do quadrado do meio, preenchido com um único símbolo genético feminino a cor de rosa. 

Podemos entender que, sendo este um jogo estratégico, e uma vez que os espaços se encontram todos preenchidos pelo símbolo masculino, o símbolo feminino não terá qualquer hipótese de ganhar seja o que for. 

Esta é uma forma metafórica de incapacitar o poder das mulheres num mundo maioritariamente dominado por homens.

6 de outubro de 2020

os meus cinco minutos # 46

 Em "O sentimento dum Ocidental", de Cesário Verde, encontramos um espírito antiépico, nomeadamente, na atitude do sujeito poético face à realidade observada. Verifica-se, de facto, a descrença nas capacidades humanas num universo citadino gritante. Mergulhamos, então, numa viagem pela urbe que representa a degradação social e moral de um espaço "non grato". Embora as personagens sejam marcadamente antiépicas, tais como os marginais - os ladrões, os bêbedos, os jogadores ou as prostitutas - , ociosas e artificiais - dentistas, arlequins e lojistas -, a sua exaltação é palpável, cingindo-se unicamente às classes trabalhadoras. Já em Os Lusíadas, de Camões, assistimos, numa abordagem superficial, a um espírito aparentemente épico, com a exaltação das capacidades humanas. Todavia, o pano de fundo esconde um espírito avesso que se rebela e deixa antever a matéria que será o mote de Mensagem, de Pessoa. A viagem camoniana, essa, é marítima e não terrestre, dando conta da diáspora dos Descobrimentos. A personagem épica coletiva é o povo português, representado por Vasco da Gama e pelos marinheiros que com ele percorrem o caminho marítimo para a Índia. Assim, em duas viagens distintas, damos conta de que o povo português sempre foi o herói da literatura portuguesa; aquele que carregou as pedras e perdeu as mãos em guerras que nunca foram suas.



os meus cinco minutos # 45

 Sísifo, o mais astuto dos mortais, enganou os deuses e a morte por diversas vezes, sendo condenado por Hermes a executar uma tarefa inglória: deveria transportar uma pedra de proporções hercúleas até ao cume de uma montanha. Não obstante, ao alcançar o cume, escapar-se-lhe-ia das mãos, irredutivelmente, deslizando até ao sopé do monte. Sísifo, todavia, recomeçaria a tarefa, sabendo-a, de antemão, vã e sem esperança de um dia conseguir terminá-la.

Recomecemos, nós, tal como Sísifo, se pudermos, sem angústia e sem pressa - diz-nos Torga. E os passos que dermos, nesse árduo caminho do futuro, dê-lo-emos em liberdade. Enquanto não alcancemos não descansemos. De nenhum fruto queiramos, por Deus!, só metade. E, nunca saciados, vamos colhendo ilusões sucessivas no pomar - uma e outra e outra! Sempre a sonhar e vendo, acordados!, o logro da aventura. Somos seres humanos, não nos olvidemos! Só é nossa a loucura onde, com lucidez pessoana, nos reconheçamos. Recomecemos...


os meus cinco minutos # 44

 É inquestionável que Os Maias encerram um pensamento e incitam a metafísica. Todavia, o seu objeto de reflexão não é mais do que o próprio Portugal enquanto personagem espectral que atua por detrás das personagens palpáveis. Trata-se de um país moribundo, irremediavelmente romântico e destinado ao falhanço, como a Geração dos Vencidos da Vida. E também é verdade que, na obra saramaguiana O Ano da Morte de Ricardo Reis, o protagonista é unicamente o ano de 1936. O heterónimo pseudopessoano é apenas um engodo, um pretexto para Saramago pôr o dedo na ferida de um Portugal doente que ele sabia de antemão que iria morrer. Se Reis morria ou não, parece-me que não é assim tão importante.





os meus cinco minutos # 43

 A Laurinha, da música “Dona Laura”, de Miguel Araújo, encontra similitudes inquestionáveis na personagem George do conto homónimo, de Judite de Carvalho. De facto, a Laurinha destemida e decidida, que diz que é crescida e que prescinde dos conselhos do pai, encontra ecos em George, que se revela uma mulher de personalidade vincada, também ela independente e autónoma, dona da sua própria vida. Sem dúvidas, nem receios, George segue o seu caminho, deixando para trás um passado que pretende, a todo o custo, esquecer. Longe da família, e lutando, acima de tudo, pela liberdade, constrói o seu mundo, muda a cor do cabelo, coleciona amores e vai vivendo em casas mobiladas, sem nada que a prenda a ninguém. Longe, sobretudo, do olhar inquisitivo e reprovador de uma mãe que lhe impinge um mundo de aparências que nunca foi das mulheres - daí o pseudónimo masculino. Ao contrário de Laura, George mostra-se economicamente independente, provando que conseguiu ser alguém na vida. Na realidade, metamorfoseando-se, torna-se o oposto do seu arquétipo maternal, pois não lhe bastava ter “um olho na novela/ E o outro na panela”. Não. Isso não lhe bastava. Cosmopolita, tornou-se numa mulher culta e prestigiada, “Toda cheia de cidade” e sem “Nenhum vestígio da miúda outrora santa e singela”, a Gi, com o alto pescoço de Modigliani. Tal como Laura ou o heterónimo pessoano, Ricardo Reis, George “dança até ser dia”, aproveitando o momento presente, numa atitude plena de “carpe diem”, pois o tempo passa, tal como o rio corre para o mar. Georgina sabia disso e nós também sabemos “Que há-de chegar a hora/ Que não poupa ninguém”, o único crime que não pode ser perdoado - a velhice - e, com ela, o vazio devastador que a consome. Nós sabemos, então, algo que George desconhece: que nada, nem mesmo o dinheiro guardado no banco, pode colmatar o espaço em branco deixado pela solidão gritante. Parece-me, pois, que o futuro de Laura será a contiguidade do presente da sua mãe; já o futuro de George será a desertificação resultante de uma infância que a não soube amar, nem compreender e que fez com que procurasse um futuro com conquistas e com prazo de validade.