22 de fevereiro de 2020

o sapatinho foi à rua # 513

Meninas, confesso.
Apostei tudo na simplicidade do look e nas mangas-balão desta camisola que eu amo, que não foi propriamente barata e que desconfio, pelo andar da carruagem, que se vai encher todinha de borboto.

Vamos fazer figas?






camisola de malha: Pepe Jeans (nova coleção)
jeans: Levi's
blazer: H&M
botins: Quebramar
óculos de sol: RayBan 
brincos: Eugénio Campos 

20 de fevereiro de 2020

a cigana # 6

Estava escuro quando senti a presença de alguém a aproximar-se. Consegui sentar-me, a custo, na relva húmida da noite. Tremia. As minhas mãos tentavam arrepanhar os farrapos que restavam para me cobrir. E vi-o! A ele, à única pessoa a quem não me podia queixar, à única pessoa que não podia saber que virgem já não ia para a sua cama; que tinha renegado o meu mundo e os limites do meu sítio; que tinha recorrido à cidade de cimento... O meu prometido!

Fazia frio e vento, e um implacável silêncio cobria-nos com um manto espesso de alcatrão. Não conseguia respirar nem sentir o corpo. A cabeça estava zonza e um fio de sangue quente corria-me por entre as trémulas pernas. Tentei tapar, em vão, a minha nudez. O cigano caminhava, decidido, na minha direcção; as botas pesadas marcavam o território com irascibilidade. Não se mostrou hesitante em momento algum; permaneceu impassível. Pegou-me ao colo como se fosse sua e não tivesse sequer vontade própria, e levou-me para a sua barraca. O burrico e os cavalos estavam irrequietos; o resto do acampamento dormia sossegado.

Deitou-me em cima do colchão que iria ser nosso; o nosso leito de núpcias e para toda a vida em comum. De seguida, arrancou-me avidamente o que restava das roupas rasgadas e despiu a sua camisola com a secura com que me trouxera até ali. Deixei-me ficar imóvel, permitindo ao coração que me mutilasse mais agilmente que o medo. Tremi e chorei. Mergulhou, então, a camisola num balde com água e começou a limpar-me o corpo da terra e relva e pedras, as feridas, o sangue que lentamente me aquecia. E ficou ajoelhado perante o meu ser por um momento; alheio aos meus pensamentos; vertido nele próprio. Depois disso, saiu da tenda e regressou com uma roupa de mulher casada, escura e larga, com o decote bem rente ao pescoço. Vestiu-me e saiu para não mais voltar naquela noite.

A luz do sol era de oiro naquela manhã, semelhante a um clarão de fogo que me cegava a vista. Sentia dores agonizantes no rosto, nas costas, nos seios, entre as pernas; um ardor que me deixava curvada. Levantei-me com dificuldade. Observei o espaço em meu redor, a barraca do meu prometido. No chão de lona, alongava-se um amplo colchão com almofadas de riscas quentes a cobiçar o fronteiro baú dourado. A um canto, erguia-se um espelho desprovido de moldura e uma bacia com motivos florais, um cabide de madeira e muitas salvas de prata que alumiavam o breu com os seus misteriosos raios ardentes.

Quando saí para o exterior, já todos estavam reunidos em redor da fogueira apagada, vigiada pelas cinzas pretas na relva acamada. Calaram-se quando me avistaram. Apenas a minha mãe se esticou e gritou e me apertou, parecendo que lhe faltava a vida.

- Ai! Seu demónio! Ai! Seu animal! – chorou, caindo a meus pés. – A minha menina!

   O resto do mulherio, uma ondulante nuvem negra, murmurava um queixume em coro; uma reza chorada, intervalada com gritos desmedidos, palavrões atirados em flecha. Uniam as mãos a Deus e amarfanhavam o rosto ao vento. Pediam por mim.

19 de fevereiro de 2020

mais do mesmo

Meninas, vamos falar de unhas?

Basicamente, não há muito a acrescentar.
Continuamos a querer o gráfico e o simples.

Dare to be different.

14 de fevereiro de 2020

daoming si

Ainda no rescaldo do Meteor Garden, ontem, quando fui à loja dos chineses, apeteceu-me meter conversa com a senhora que estava ao balcão e dizer-lhe que vi a série chinesa todinha de fio a pavio.
Mas depois achei melhor não dizer nada.

Foi muito complicado conseguir conter dentro de mim tanto sentimento!

13 de fevereiro de 2020

a cigana # 5

Vi homens e mulheres bonitos como nunca pude imaginar! Arranjados, perfumados, de olhos e cabelos claros! Elas, com saltos altos e reluzentes, e saias curtas; eles, de barba feita, alguns de gravata. Caminhei muito tempo à deriva, sem saber o que fazer, a quem me dirigir, o que pedir, o que dizer. Sentia fome. Calculei que já passasse do meio-dia, dado que o sol se precipitava do pico do céu e as lojas começavam a fechar. Foi mais tarde que arranjei coragem e entrei numa loja de calçado. Tomei fôlego, descaí a cabeça, em sinal de humildade e respeito, e ultrapassei o limiar da porta.

– Boa tarde...- percorri o chão macio e suave e cheiroso até à senhora loira e lindíssima que me olhava por trás do balcão.

Mas, mal abri a boca já ela, afogueada, me açoitava porta fora. Atirou-me os olhos redondos e autoritários, a voz esganiçada – Vá-se embora! Não damos esmolas! – arrastou-me, furiosa, como se o mal fosse agredi-la com a minha presença.

Entrei em mais de uma dúzia de lojas e tive, em todas, reacção idêntica. Não me deram a oportunidade sequer de pedir desculpas pelo mal causado. Nada. Unicamente os cães rafeiros e abandonados me circundavam e me compreendiam a rejeição.

O dia escureceu não tardou muito. Reparei que me tinha afastado consideravelmente e que estava perdida, sem destino, sem saber como ou se queria regressar ao sítio. Perdida!

A noite caía limpa e densa de contas brilhantes. Já era tarde quando avistei um polícia e me dirigi a ele. Sabia que não tínhamos leis comuns, mas era a minha única esperança.

- Olá... – cumprimentei, receosa.

- Olá, pequena! – saudou-me sem discriminação; quase como se eu fosse um deles, da cidade de cimento e tijolo, da mesma carne e do mesmo sangue. Igual.

            Tive um pouco de dificuldade em percebê-lo, que se a língua que falávamos era a mesma, a mim me parecia outra bem mais embrulhada e difícil de decifrar. Lembrei-me da minha amiga da escola, loira e esguia de tranças, e apercebi-me de que não só a fala era parecida, como também a entoação e a simpatia na doçura das palavras.

            - Fugi de casa... querem-me obrigar a casar e... – as lágrimas e os soluços acudiam-me e atropelavam-me os pensamentos. – Eu só queria um emprego...

            E o senhor simpático e bondoso afagou-me com cuidados. – Com que então, queres um emprego? Isso cá se arranja! Precisas é de te alimentar, de vestir um agasalho, que está a fazer frio e esses ombros à mostra... – e levou-me com ele no carro novo de luzes grandes a piscar.

O automóvel parou um bom bocado mais à frente, no resguardo da berma da estrada, junto ao rio que banhava o meu “sítio” com a certeza da sua serenidade. E o senhor olhou-me e eu não percebi. Não percebi que a crueldade não existe só no meu povo, mas em todo o lado. Subitamente, e com todo o prazer que uma gargalhada sonora pode conter, atingiu-me com um tremendo soco, que me lançou de encontro ao vidro. Excitado, arrancou-me a roupa num só puxão e, com as mãos nas goelas, fez-me calar! As forças? Perdi-as a tentar soltar-me... enquanto a cabeça, em fisgadas, girava numa agonia veloz. De seguida, senti as cuecas a rasgarem-se impiedosamente nas suas mãos firmes e decididas, e uma dor imensa fez-me sangrar! Segurando-me os seios e gemendo, deixou-se estar, sôfrego, violento, afogueado, em cima de mim e, depois de saciado, abriu a porta e atirou-me num pontapé pela ribanceira abaixo. O corpo aos encontrões na pancada das pedras! Perdi a visão; os sentidos também.

12 de fevereiro de 2020

pim, pam, pum

Se tivesse uma máquina do tempo e pudesse voltar atrás e conhecer alguém realmente importante, estava indecisa entre Gil Vicente, Antero de Quental e Fernando Pessoa.
E vocês?

11 de fevereiro de 2020

parfois

Rendi-me a estas pulseiras de inox da Parfois.
São lindas.
Ajustáveis.
Nunca as tiro.

Uma tem a forma de coração e é fofucha.
A outra é simples e minimalista e tem tudo que ver comigo.

Estilo!!!

6 de fevereiro de 2020

a cigana # 4

Eu e a minha família nunca estamos muito tempo no mesmo sítio. Refiro-me a “sítio” como à minha casa, ou ao meu lar; simplesmente não me é permitido dizer casa, pois não tenho cortinas, muito menos paredes! Como estava a dizer, nunca ficamos muito tempo em cada sítio. Às vezes, dado que o frio se torna demasiado ou a chuva abundante; outras, porquanto o negócio vai mal e seguimos para terras de feiras maiores, onde os compradores abundam e o dinheiro vem melhor ao fim do mês. Outras vezes ainda, porque, de quando em quando, estalam grandes discussões entre nós, que terminam em tiroteios e até em mortes! Alguém que matou o cunhado com três tiros de caçadeira quando o apanhou na cama com a mulher, ou porque lhe abusou da filha mais nova. É complicado viver assim... É certo que não temos regras, nem leis conforme vocês e, no entanto, as vossas leis invadem-nos e tomam elas conta de nós! Não é justo, pois o povo cigano é a própria erva que se molda ao vento e ondula com ele. Nós não temos forma nem pertencemos a lado algum, apenas agimos com e para a Natureza...

Tinha quinze anos quando me obrigaram a casar. Quis fugir e ser como tu, livre e ágil como um pássaro, não como a relva que já tem um destino previamente traçado! Chorei dias e dias seguidos. Sempre tinha imaginado que a vida era um sonho e nada o podia quebrar! Acho que estava enganada... Desejava com todo o ardor sair daquele mundo, romper a teia que me acorrentava com malícia e seguir o rumo da minha alma. Estava confusa e perdida, mas tinha plena consciência que, se transpusesse a fronteira que nos separava, também tu não me aceitarias!

Conheci justamente nessa límpida noite de lua cheia aquele que viria a ser inevitavelmente o meu futuro marido. Era um homem bem mais velho do que eu, alto, seco, quase franzino, de negra barba e olhar indiferente. Exibia um largo anel no dedo indicador e um dente reluzente; ambos de oiro.

À hora do jantar, os homens e as mulheres partilharam excepcionalmente uma só mesa, em sinal de comemoração. Fizeram uma festa de cor, danças e cantares da minha longa tristeza. Quanto ao meu noivo, não me dedicou o olhar uma única vez durante longas horas. Brindava-me, sim, com a sua indiferença, cedendo cobardemente a um compromisso traçado pelo destino antes de os nossos corpos se terem definido, antes ainda de o nosso coração chegar a bater! A cerimónia ficou marcada para dali a um mês, data em que abandonaria o meu povo e seguiria com o dele. Um mês!

Incrédula, precipitei o olhar espelhado no aglomerado de prédios despidos, na tentativa vã de arranjar coragem para procurá-los e desistir de tudo. Passaram-se dias, semanas, um mês... Todas as manhãs, todas as tardes, todas as noites, tinha a irrevogável obrigação de atendê-lo tal qual uma súbdita, uma escrava, um objecto contemplativo. Cozinhava para si, lavava-lhe as roupas, cosia-as e remendava-as paciente e submissamente, acendia a fogueira e dançava para seu contentamento. Mostrava-lhe, evidentemente, os meus dotes, que era prendada, que iria dar uma boa mulher e uma boa parideira.

Faltava um dia para o casamento. Somente um dia! E foi então que o desespero me precipitou para o mundo de cimento; o mundo que sempre me desprezou e que agora o procurava e via nele a solução única para os meus males. Resoluta, acordei cedo e desapareci sem dar satisfação a ninguém. Fui como pude; descalça, de farrapos velhos e sujos numa saia comprida e rodada; uma trança negra quase até à cintura; umas argolas de oiro torcido. Aventurei-me.

4 de fevereiro de 2020

o sapatinho foi à rua # 512

Olá!

A minha paixão, como sabem, são as cores e os padrões.


Neste look descontraído, temos o castanho que se mistura inesperadamente com o vermelho.

Às páginas tantas, ups!, o padrão gráfico cruza-se com o xadrez.

*

A juntar à festa, há as calças curtas de cintura subida.

E os loafers-que-estão-sempre-na-moda (super intemporais!!).

E o cabelo por dentro do casaco.

Boa disposição.


Boa semana para todas!







camisola de lã fria preta: Caroll
calças ao xadrez: Pull&Bear
loafers em pele: H&M
bomber: Zara (secção de homem)
óculos de sol: Ray Bain

1 de fevereiro de 2020

os meus cinco minutos # 39



Camões, tal como Fernando Pessoa, procura enaltecer o povo português, evocando os feitos que o torna singular.  Este herói coletivo, predestinado para chegar mais além, destaca-se pelas suas “obras valerosas”, sendo cantado numa dialética material/ onírica.


Em Os Lusíadas, podemos mencionar um herói de dimensão humana e histórica. Os protagonistas que dão voz a esta epopeia são Vasco da Gama e os marinheiros portugueses que se sagram na diáspora dos Descobrimentos, na sua viagem marítima até à Índia.  São, assim, valorizados pela sua ousadia e coragem perante o desconhecido, superando a sua própria condição humana e sendo elevados à categoria de deuses. Tal verifica-se na recompensa pelos seus atos, no capítulo IX, na Ilha dos Amores, destino reservado aos deuses.

Já na Mensagem, o herói não se inscreve num tempo ou num espaço determinado, assumindo uma vertente mítica/ simbólica. D. Sebastião representa a ambição e a coragem espiritual que podia fazer renascer a glória da pátria. Aqui, Pessoa atribui um caráter contemplativo ao herói, como é o caso de D. Dinis, que age como instrumento da vontade divina. Agora é “A Hora”, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Falta cumprir-se Portugal num plano cultural e civilizacional e a crença na edificação do Quinto império consagra-se na frase “Valete, Frates”.

Em suma, ambos os autores têm como missão a valorização dos atos dos portugueses, com vista ao alavancamento da identidade nacional numa conjuntura política, económica e social fortemente debilitada.

A morte de Portugal é a semente para a ressurreição messiânica de um povo eleito que se irá erguer das cinzas.