Os Descobrimentos foram o apanágio breve e fugaz da economia portuguesa, bem como do nosso próprio ego; o único momento áureo que dourou a pílula nacional.
Em O ano da morte de Ricardo Reis, o elo de união entre a época da diáspora portuguesa e o presente, decrépito, estagnado, moribundo, caótico, é, indubitavelmente, a dantesta estátua do Adamastor, no miradouro de Santa Catarina, na metrópole que, pelo silêncio, portuguesa deve ser. O seu tamanho desmedido simboliza os árduos obstáculos que os nautas tiveram de ultrapassar para conquistarem os revoltos mares deconhecidos e os perigos que por lá havia.

O Mostrengo ergue-se, ereto, ao longo da obra, enquanto lembrança constante e intimidatória da nossa frustração relativamente ao momento atual. À semelhança da série Strangers
Things, dos Duffin Brothers, também um mundo invertido nos é impingido, não
por José Saramago, mas pelos portugueses estáticos, sonhadores, sebastianistas,
amordaçados por um fascismo salazarista que nos saiu da pele.
O heterónimo Ricardo Reis, personagem pessoana que
deixa Highland Brigade e o oceano
estéril para trás, enceta agora a sua empresa terrestre, sinónimo da
possibilidade de uma nova saga “Aqui, onde o mar acaba e a terra principia”. O fim da glória portuguesa nos mares é certo,
como certa é a nossa crença na possibilidade de encontrarmos a grandeza em
terra.
O protagonista carrega com ele o elemento cénico que o
condena desde o início, The God of the
labyrinth, que o acompanha pelo labirinto da cidade de Lisboa e do mundo,
pelo labirinto das notícias tendenciosas, fraudulentas e eufemísticas dos
jornais, pelo labirinto interior dele mesmo, que se tenta encontrar e
justificar enquanto personagem palpável e material, independente de Pessoa, e
pela circularidade da obra que nos oprime e não nos deixa escapar de uma
realidade amorfa “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”.
Às páginas tantas, nós, enquanto leitores, testemunhas
ávidas da derrota da nossa História, criamos expectativas forjadas. Fazemos
figas e, juro!, é possível vencer o fascismo e Salazar e a crise económica, e
Reis vai, juro que vai!, comprometer-se com a vida, com a Lídia, vai perfilhar
o raio do filho e vai errar mil vezes ao distanciar-se da disciplina estoica
que o come vivo. Enquanto fazemos figas e fechamos os olhos, Reis vai ser
pessoa. Não Pessoa, mas pessoa, agora, saramaguiano, mesmo que a porcaria da
estátua nos olhe de soslaio e nos lembre deste universo invertido que não nos
tem levado a lado nenhum, senão aqui mesmo, a este marasmo físico, político e
intelectual.
No meio de Sampaios e Marcendas e personagens que não
interessam nada a ninguém, damos de caras com Lídia, homónima da musa das odes
do poeta da Antiguidade Clássica, agora, heroína saramaguiana. Personagem
carismática, a lembrar a mulher do povo, forte, destemida e trabalhadora - o
tipo de mulher valorizado por Cesário na sua poesia -, provoca o desejo e o afeto
de Reis, embora pertençam ambos a classe sociais distintas e incomungáveis. É
ela, ainda, quem mais?, que permite o despertar do heterónimo, bem como uma
ligação com o Mundo, representando a possibilidade de aquele existir sem o seu
criador.
Lídia afasta-se, drasticamente, com sua licença, da panhonhas
da Marcenda, um bibelôzito adormecido, com a mão esquerda igualmente adormecida,
em analogia com o outro tal de Baltasar e com os ideais comunistas que, por si
só, poderiam salvar a pátria. A murcha Marcenda simboliza a apatia e a impossibilidade
de ação. Espectadores do mundo, Reis e Marcenda, bebem da passividade e
alheamento perante a realidade.
À imagem de Cesário Verde, também Reis deambula geograficamente
pela cidade oprimida, mas, sobretudo, deambula no seu cerne, tentando
encontrar-se. Recupera o mapear da capital, é verdade, e desencadeia processos
catárticos de divagação. Olha para dentro de si próprio e tenta descobrir a sua
identidade.
Já a Lisboa personificada, velha, chorosa e
grisalha, sufoca no seu silêncio e na sua opressão camuflada, enquanto cruza a
perna e se senta, voltada para o rio, a ler a Conspiração, a bíblia do sistema vigente, e a tomar um cimbalino. Sente-se iludida, ela!,
com os fogos de artifício, os bodos, as batalhas de flores.
Ah! Afinal, ali,
não faltam alegrias!
No que toca a Fernando Pessoa... chapéu!
Contrariado no seu protagonismo, ele, que agora não passa de um mero fantasma, troca de lugar com um esboço de gente e parece não achar piada a toda uma diegese anacronicamente
impossível.
Afinal de contas, um pedaço de papel e uma mão cheia
de delírios consegue ganhar forma e refletir-se no espelho, enquanto ele, Pessoa pessoa, deixa de existir?
Onde já se viu isto?!
Ele, que se quer mascarar de morte, e Reis, que
seria o domador do seu próprio destino, um destino que lhe não pertence, trocam
os seus papéis. De facto, é o criador que, no topo da cadeia
alimentar, sem que nos apercebamos verdadeiramente, toma as rédeas da situação,
com a sua presença vincada e constante, incómoda, até!, de quem passa por Reis
e o pressiona e fica e insiste
Estou a incomodar?
e aproxima-se
Voltei!
mais um
pouco
Fica, a sério, segue a tua vida com a Lídia e com o garoto!
e volta a
meter o bedelho
Cucu!
e está permanentemente ali, como o estafermo da estátua
do Adamastor, a lembrar que nos quer levar com ele; diz que não, que não quer,
que vá com a outra, com ela, a tal da Lídia, dá-lhe pancadinhas nas costas, mas
não desarreda o pé; fica; demora-se; até que Reis se canse e acabe por
seguir jornada consigo, levando no braço The
God of the Labyrinth, o bendito livro que o tramou bem tramado, desde que fincou pé na Ocidental praia lusitana.
Quanto ao desfecho, trocaram-me as voltas.
Tinha a certezinha absoluta de que o título era só para enganar...
Punha as mãos no fogo!
Mas não.
Enquanto Lídia opta pela vida, pelo caminho mais
difícil e tortuoso, a nossa personagem modelada, agora com nuances emocionais
advenientes do micro espaço da casa alugada no Alto de Santa Catarina - assim
como a casa mobilada que cria raízes e reminiscências no conto “George” -,
opta pelo universo literário.
É tão fácil, Reis!
Tu!, que quase sentiste o dedo a tocar-te o coração, quando
soubeste que ias ser pai!, e que choraste à vontade, na tua apoteose enquanto ser
ficcional saramaguiano, na cama desfeita, aquando da revolução dos marinheiros!
Tu!!
Só tu! nos deste ânimo para depois nos deixares!
E nós, leitores, claro!, sentimo-nos vazios e amargurados, pois torcíamos pela materialidade deste espectador que nunca se comprometeu com Lídia, quanto mais connosco!
As palavras de Saramago não nos deixam
indiferentes, pela voz interventiva que revisita a História e nos transporta
com ela, e pela escrita inusitada que, de alguma forma, nos impele a participar no enredo e a tomar partido. Ao assimilarmos a simbiose de falas e de discursos
marcados por vírgulas, comprometemo-nos com a tarefa privilegiada de pontuar este texto.
Por isso, o meu muito obrigada.
Agora, em tom de confissão, aqui que ninguém nos ouve, seria caricato o filho de
Ricardo Reis ainda andar por aí, ao Deus-dará, sem ninguém dar conta.
Ter os seus oitenta e quatro anos.
Mais coisa, menos coisa.
Viver em Lisboa.
Junto ao rio.
Provavelmente, teria filhos e netos e até bisnetos,
quem sabe?
E, surpreendentemente, alguém pegaria no
estilhaçamento do espelho existencial de Pessoa e recriá-lo-ia, que já não
seria a primeira vez que a literatura dava vida a alguém.
Podia até surgir o romance Os Reis, à semelhança de Os
Maias e narrar a existência de uma geração de outros, com a letargia do
nosso país como fio condutor, pois nada mudou, entretanto.
E se Pessoa, um dia, em Mensagem, se esqueceu de falar de Camões e da sua grandeza, vamos
acreditar que não foi por inveja, mas sim por esquecimento.
E ai dele, de Camões, que sorria na sua boca de bronze.
Ai dele!