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23 de setembro de 2018

os meus 5 minutos # 25

No outro dia, estava no Parque Municipal de Aveiro com o garoto.
Ele tinha comprado um skate no dia anterior e ia estreá-lo ali.
Fomos juntos pela entrada principal, descemos a escadaria e um grupo de jovens identificados com crachás da Universidade de Aveiro veio ter connosco.
Uma rapariga estrangeira dirigiu-se a mim com uma esferográfica preta na mão.
Do you speak English?
E eu disse que sim.
Yes. Do you want to sell me that pen?
Ela olhou para mim, admirada.
Yes...
Então, fez-me uma proposta: dar-me a esferográfica, se pudesse escrever no skate do Bernardo.
That's his skate. Ask him.
Does he speak English?
Yes.
Claro que o garoto se mostrou relutante.
Afinal de contas, o skate era novinho em folha.
Hmmmm...
Ok. We give you this pen if you let us take a photograph with it.
Ok. - disse o garoto.
Então, tiraram uma foto com o skate e entregaram-nos a esferográfica.
Nisto, vira-se ela para mim, aflita:
God! We're going to need the pen!! I'm so sorry... 
Ok. So, give me something in return. 
???
Sell me something!
Todo o grupo começou à procura de qualquer coisa nas mochilas.
Um pedaço de papel amarfanhado.
Sell it to me.
E o rapaz disse: I have this piece of paper. You're going to need it to write something down.
No. I don't think so. If we give you our pen, we won't have anything to write on.
Hmmm...
I have a wound patch. - disse outro.
Interesting. Sell it to me.
Well, your son is going to skate for the first time, right? He might use it, don't you think so?
Good job! - sorri-lhe.

A primeira rapariga que falou connosco virou-se para mim:
How did you know I wanted to sell you this pen?
I watched The wolf of Wall Street.
No final de contas, usámos o penso no Estágio de Judo da 4JUDO!


27 de agosto de 2018

os meus cinco minutos # 24

fecha os olhos
e escuta
ouve o silêncio mudo que te envolve
sente o sol a sorver-te o rosto 
e a sombra intermitente das árvores ao redor
numa dança
num sopro
sente o calor a afagar-te os ombros e a aquecê-los 
levemente
o cantarolar da água a ser fendida pelos remos
incessantes
as cigarras
serão mesmo cigarras?
o baloiçar do teu corpo no espelho translúcido do rio
agora
fecha os olhos com mais força
e imagina-te aqui
aqui
ao meu lado
neste corredor esquecido
que te suga
que te embala numa viagem que é só tua
num segredo
shhhhhh
se abrires os olhos verás as pedras mudas e quedas no fundo do rio
como um eco
sentirás a frescura das sombras
e encontrar-te-ás finalmente
a ti



18 de agosto de 2018

os meus 5 minutos # 23

conheci a Letinha numa sexta à noite
trabalhava lá na tasca da esquina
aquela esquina em que parecia que o sol se tinha esquecido dela e apenas o vaivém monótono de sobretudos pesados e lúgubres lembrava que o lugarejo existia
lá dentro, uma dormência latente respirava, suspensa
apenas o barulho estridente da loiça ameaçava acordar os movimentos pensativos de quem por ali se alongava
a Letinha era a única que lutava com o tabuleiro na mão, com o baloiçar dos copos, vivos, intrépidos, revoltos
ginasticava tão bem que a dança tinha asas e vibrava
ela era assim
eu comia e bebia, à farta, e a Letinha lá estava, enfiada no seu sorriso sofrido e no avental engelhado no abraço das ancas
fazia parte daquelas paredes que só existiam por sua causa
robustas e silenciosas, eretas, desciam até aos seus pés e aninhavam-se em si
falou comigo uma vez
primeiro olá
depois boa noite
tudo bem
senta-te que já levanto a mesa
e a mesa olhava para mim, carregada de nódoas de vinho e gordura e pedaços de arroz
e ela vinha e limpava tudo rapidamente
corria e o suor corria-lhe no rosto lívido e desmaiava no decote, num soluço, por entre uma corrente de ouro que adivinhava uma cruz na sua extremidade
e a toalha de papel era amarfanhada pelas suas mãos grossas e céleres que a anulavam logo ali
vinha uma outra, branca e lisa
e uma jarra de vinho
e um frango
e o arroz
e a salada que era, muitas vezes, esquecida
e lá vinha a Letinha, com os braços de sardas, trémulos e anafados
tagarelava para o ar e acrescentava vida àquele punhado de gente que empurrava a solidão para longe e ela tornava a vir uma e outra e outra vez
a miúde, imaginava um diálogo que nunca chegou a existir
como estás
estou bem. cansado
queres que me sente ao teu lado
sim
e ela descia até mim com os olhos postos nos meus e olhava-me, curiosa
entravamos no mundo um do outro
víamos o que ninguém conseguia ver
perguntava-me se gostava de ler e de ir ao cinema
e de pintar
gostas de pintar
sim, mas já me esqueci. esqueci-me de como se pinta, acreditas
voltava outra noite e, dessa vez, estendia-me umas quantas bisnagas de guaches e um pincel e um bloco de folhas grossas
agora pinta
e eu pintei

21 de fevereiro de 2018

os meus cinco minutos # 22

Os divórcios estão na moda.
Estão na moda, porque toda a gente tem o direito de ser feliz e seguir com as suas vidas ou porque, às vezes, custa muito tentar e é mais fácil desistir.
Seja o que for.
Estão na moda, os divórcios.
Também está na moda as mães acharem que é fixe quando os miúdos vão de fim de semana para casa dos pais.
Têm mais tempo para elas.
É o que dizem.
Não uma, nem duas, mas a maioria das mulheres que conheço.
"É tão bom."
"Tenho mais tempo para mim."
O que é isso "Mais tempo para mim"?
Não compreendo muito bem o que significa.
Conseguem imaginar?
Imaginar a casa a ficar fria e vazia e deserta e árida quando um filho não está?
Ver crianças na rua, a rir, aos saltos, com os pais, e faltar-nos a mão cheia com a mãozita delas.
Faltar-nos o corpo varrido com abraços e o rosto a abarrotar de beijos.
Ouvir crianças a fazer uma birra, mas não termos a nossa ali para rirmos muito ou ralharmos com ela.
É, certamente, um pedaço que nos tiram.
Há um silêncio tão grande dentro de nós que grita tão alto que quase ficamos surdas.
Se calhar não é silêncio.
Se calhar é solidão.
É, certamente, solidão, mas custa admiti-lo.
Mas o pior, o pior é atravessarmos o corredor lá de casa.
Isso é que é o pior!
Atravessarmos o corredor lá de casa que, dantes, era pequeno e, agora, quando não estão, cresceu e se tornou grande, mas tão grande, que nos custa chegar até ao fim.
Alguém sabe ou sonha ou imagina o que dói passar pelo quarto de um filho e ele não estar lá???
Está vazio!
Alguém?
Ter tempo para nós?
Qual tempo para nós?
Temos tempo de sobra para nós.
Na cozinha.
Na cama.
Na banheira.
No trabalho.
Nas leituras.
Nas limpezas.
Temos tempo de sobra para nós.
Mas e o tempo que demoramos a atravessar o corredor de casa, que cresceu, e nunca mais acaba?
E o quarto que está vazio?
E o casaco da criança que ficou pousado na secretária, desarrumado, e temos todo o tempo do mundo, agora, para arrumá-lo, mas já não queremos?
E os chinelos que se esqueceu no nosso quarto e que agora não tem importância nenhuma não estarem no sítio certo?
E a pasta dos dentes que não ficou tapada e que já não importa se ficar assim?
E tudo o que pedia, tudo o que pedia neste mundo, era, por favor, por favor!, ter menos tempo para mim.
Conseguem imaginar?

23 de novembro de 2017

os meus cinco minutos # 21

Sou preto.
Nasci preto e sou assim desde que me conheço.
Há quem prefira chamar-me negro ou de cor ou cor de chocolate.
É-me igual.
Não me importo.
Não acho que isso seja muito importante até porque tenho um nome, o que facilita imenso as coisas.
Claro que quando somos diferentes os nomes são desvalorizados.
Preferem dizer Olha o preto!
Basta ser diferente para termos um rótulo.
Também não podemos ser muito gordos, nem muito magros.
Nem demasiado altos, nem demasiado baixos.
Nem demasiado feios, nem demasiado bonitos.
Há uma rapariga na minha turma que é demasiado feia e ninguém fala com ela.
Há outra que é demasiado bonita e as amigas falam mal dela quando ela não está.
Basicamente, eu sou demasiado preto ou demasiado negro ou demasiado de cor ou demasiado cor de chocolate.
Também me visto mal.
O que é o mesmo que dizer que não tenho nada de marca.
Não tenho umas sapatilhas da Adidas, como todos os rapazes da minha turma.
Ah!
Pois!
Também sou o pobre!
E o colega da minha carteira é o filhinho dos papás, pois é demasiado rico e veste-se só de marca e isso incomoda os outros.
Já te sentiste assim?
Diferente?
Já te taparam a boca e os olhos e deixaste de ser quem és por causa dos outros?
Às vezes, apetecia-me ser branco e menos pobre e igual a todos os outros para passar despercebido e ninguém reparar em mim.
Mas assim a vida não tinha piada nenhuma.
Vamos ser pretos e gostar de ser pretos e não nos importarmos com isso?
Vamos ser caixas de óculos e aceitar que somos assim?
Vamos ser altos, mesmo altos e não ter de dar satisfações a ninguém?
Vamos ser como somos e deixar de nos importar tanto com o que os outros pensam?
Vamos ser diferentes?

17 de outubro de 2017

os meus cinco minutos # 20

Às segundas-feiras, dou aulas na Palhaça.
Ontem foi o caso.
Aquela zona tinha sido severamente molestada pelos fogos na madrugada anterior.
Por isso, fui a medo.
Com receio.
Como todos os portugueses que, ultimamente, se aventuram pelas nossas estradas.
As estradas da morte.
Já não havia fogos, mas também já não havia espaços verdes.
Nenhuns.
Havia fumo.
Muito fumo e custava respirar.
As pessoas, cá fora, na estrada, falavam umas com as outras.
Os meus alunos estavam cansados e os pais não tinham dormido.
Tinham estado a apagar fogos perto das suas casas durante horas.
Para não perderam tudo.
Senti-me triste.
Impotente.
Indignada.
Perplexa, pois achava que não iríamos ouvir falar deste assunto tão cedo.
Que era outubro e bastava ser outubro, para não haver mais fogos.
Gostava de conseguir segurar o mundo na mão e soprar-lhe em cima e acabar com os fogos para sempre, pois não há desculpa nenhuma para alguém poder morrer assim.
Não há.
Será que este inferno vai continuar?



28 de setembro de 2017

os meus cinco minutos # 19

Puseram um porco saudável dentro de uma piscina.
O porco nadou calmamente.
Quase graciosamente.
Assim que passou pela rampa de saída, saiu da piscina por ela.
Entretanto, pegaram num porco stressado.
Quando digo stressado, refiro-me a um porco sujeito a muito barulho, com pouco espaço para estar, sem horas certas para comer e sem comida suficiente para se alimentar devidamente.
Puseram, então, o bendito porco stressado dentro da mesma piscina.
Assim que se viu enfiado na água até ao tutano, o porco começou a nadar descoordenadamente, com movimentos desregrados e grosseiros.
Parecia prestes a afogar-se.
O pobre animal, aflito, passou pela rampa de saída e não a viu.
Voltou a passar pela rampa de saída e tornou a não vê-la.
Aliás, demorou imenso tempo a conseguir encontrá-la.
Lembro-me sempre desta experiência que vi na televisão há uns anos.
Sempre que estou stressada.
Sempre que complicamos o óbvio e não encontramos a saída para os nossos problemas.

17 de setembro de 2017

os meus cinco minutos # 18


Portugal. Quiçá Brasil.

Século XVII.

Chega a Inquisição e bate à porta do António.
Truz! Truz! Truz!
Chega armada, a Inquisição.
Arrogante e altiva.
Mas é ela quem manda e António sabe-o bem.
Então, coseu-lhe a boca e atou-lhe as mãos, para que não orasse e para que não pintasse.
Disse-lhe que a culpa era do Barroco.
Que o denunciara.
E bastava isso.
Bastava alguém apontar o dedo para que todas as portas se abrissem e tudo acabava, inexoravelmente, por desaparecer. Até a própria existência.
Barroco vem da palavra "barrueco" que significa pérola imperfeita.
Por isso mesmo, por ser imperfeita, ainda que com o estatuto de pérola, o "barrueco" foi, durante muitos anos, uma designação altamente pejorativa que caracterizava formas de escrita, pintura e escultura consideradas pelos amantes da simplicidade como um estandarte de mau gosto; eram demasiado excêntricas, extravagantes, teatrais.
António criava, precisamente, formas de arte espetaculares e faustosas, longe da simplicidade do vizinho Renascimento, recatado e silencioso e, portanto, sensato e inteligente.
António era ruidoso e isso incomodava.
Claro que António precisava do Barroco como um mendigo precisa do pão para a boca.
O Barroco era a sua tentativa de fuga a um ambiente pesado e excessivamente vigiado, pois todos sabemos que a falta de liberdade conduz à evasão.
Então, como estava a dizer, a Inquisição entrou-lhe porta adentro.
Consumiu-o.
Revirou-o.
Coseu-lhe a boca e atou-lhe as mãos e António ficou pequeno, pequenino, pequeníssimo.
António encolheu-se e cabia na palma da mão.
Media cinco centímetros apenas, se tanto!
A Inquisição sacudiu-o, com unhas e dentes, rasgou-o e feriu-o e largou-o, por fim, inerte.
Mas ficou de atalaia, à espreita, de peito feito, muito bem encostadinha junto à porta, junto às janelas, por entre as ruas e nos rostos das pessoas que se cruzavam consigo.
E deixou-lhe o Medo.
E o Medo passou a ser como um cão.
Passou a segui-lo, a farejá-lo, a deitar-se aos seus pés e a lamber-lhe as feridas.
O Medo passou a dormir consigo e a comer ao seu lado.
- Vieira!
Mas não era ninguém.
Era apenas o Medo que o consumia, pois a Medo vivia, a Medo escrevia e a Medo calava.

13 de setembro de 2017

os meus cinco minutos # 17

Conheci a Ana e a mãe da Ana na esplanada do Palhota, em Armação de Pêra.
Conversámos pouco, enquanto eu bebia uma Super Bock e a paisagem olhava para mim e eu para ela - parecia que nos conhecíamos há muito!
Conversámos sobre as férias e sobre o trabalho e sobre o tempo.
São trivialidades que funcionam sempre quando não conhecemos muito bem a pessoa que está à nossa frente.
O tempo está fantástico!
Que dias agradáveis, estes!
A água está boa, mas estava mais quente o ano passado, sabe, nós temos casa aqui. - alguém responde, neste caso, a mãe da Ana.
Coisas assim.
A mãe da Ana, muito loura, louríssima, falava do marido, que era médico, que trabalhava no hospital não sei das quantas, que era um lente, que ganhava bastante bem e que estava sempre a viajar, por isso não estava com elas, ali.
Estava em Angola ou no Dubai ou onde quer que fosse.
A Ana era professora e não tinha ficado colocada no ano anterior e neste logo se veria, que devia ter escolhido outro curso, não aquele, que não tinha saída e que não servia para nada e nós bem a avisámos, mas ela não quis saber.
A Ana teria uns vinte e poucos anos e possuía uns grandes olhos escuros.
Só me lembro disso mesmo, dos seus grandes olhos escuros, profundos como um poço; tão profundos que quase conseguia atirar-me lá para dentro e afogar-me neles.
Queria comprar um chapéu de palha para a mãe, mas não tinha assim muito dinheiro.
Conseguiu comprar um por cinco euros, disse-me.
Não podia gastar mais do que isso, mas o chapéu era lindo.
Saiu da loja com um saco na mão e um sorriso no rosto.
Ah! Sim. Também me recordo do sorriso da Ana.
Só o vi, realmente, depois de comprar o chapéu para a mãe e depois de sair da loja com o saco na mão.
- Toma. - entregou-o à mãe.
Novamente o sorriso. O tal sorriso grande que lhe preenchia todo o rosto e lhe escondia o nariz e até os olhos, os grandes olhos da Ana.
- O teu é mais bonito. - respondeu-lhe a mãe. - Foi o meu marido que lho deu o ano passado. Veio da Tunísia. Deve ter custado uma fortuna. É lindo, não é? - voltou-se mim, nos seus grandes caracóis e no seu batom que tingia levemente os dentes da frente.
Sim, era.
Era um chapéu grande, enorme, aliás, com uma tira de linho rosa-velho e mil e um pompons, ali, agarrados, com unhas e dentes, de todas as cores, e uns quantos búzios e umas argolas douradas a miarem para quem passasse.
No dia seguinte, a mãe comprou um novo chapéu para si.

2 de setembro de 2017

os meus cinco minutos # 16

Era uma vez uma senhora com uma borbulha muito grande na testa.
E era uma vez um senhor com umas orelhas muito grandes. 
Certo dia, a senhora com a borbulha muito grande na testa entrou num café, no mesmo café onde estava o senhor com as orelhas muito grandes.
Então, a senhora, incomodada, pensava: - Aquele homem não para de olhar para a minha borbulha!!
O senhor, chateado, falava com os seus botões: - Aquela mulher não para de olhar para as minhas orelhas!!!

29 de agosto de 2017

os meus cinco minutos # 15

Na realidade, as férias em Armação de Pêra não foram só um mar de rosas.
Tiveram um contratempo um pouco desagradável.
Poderia não falar dele aqui, pois não é algo bonito de se dizer.
Não é.
Mas alguém tem de o fazer.
Como devem imaginar, a Ippon veio connosco de férias.
E portou-se muito bem.
Claro que andava com saudades das irmãs-gatas, mas isso é como tudo na vida...
Andava cabisbaixa, com a cauda murcha, a varrer o chão, com os olhitos húmidos e tristes.
Dava dó!
Mas a vida continua e lá íamos, todos os dias, com a bicha à rua para fazer as necessidades fisiológicas e para ver se animava um bocadito, que bem precisava.
E é sobre isso mesmo que venho aqui falar hoje: de cocós.
Precisamente.
Cocós.
Pronto.
Já disse.
Não são um ou dois ou meia dúzia deles.
São dezenas e dezenas de cocós, que um cão tem de se aliviar conforme pode e todos nós compreendemos isso com maturidade.
Uma coisa excelente em Armação de Pêra é que encontramos com facilidade um depósito de saquinhos para dejetos caninos.
O que é bom.
É bom, pois sempre poupamos algum dinheiro e o objetivo é ter a cidade limpa.
Posto isto, a primeira vez que saí à rua sozinha com a bicha e me deparei com um mecanismo destes, ergui as mãos ao céu, agradecida, e até fiz o trajeto mais feliz e tudo.
Parecia que nada poderia estragar aquele momento de felicidade extrema e incondicional.
Imaginem só, eu, a bicha e um saquinho de cocós à borlieu, na mão, prestes a ser usado.
E foi.
Passados poucos minutos.
Tau, a bicha lembrou-se de fazer três cocós, desculpem lá o preciosismo da coisa, mas três cocós de tamanho jeitosinho, mesmo no meio da estrada.
Imaginem só a minha fronha quando vejo um carro a aproximar-se, a bom aproximar, do local da descarga, eu com a mão dentro do saco, pronta a apanhar tudinho e nervosíssima para não ser atropelada naquele momento delicado.
Ser atropelada no momento em que estamos a apanhar cocós, convenhamos, não é algo assim de que nos possamos gabar.
Consigo antever o título que poderia surgir numa notícia de jornal, após um incidente deste calibre: "Mulher é atropelada no momento em que se prepara para apanhar cocós" ou "Mulher aveirense é suspeitamente atropelada com cocós na mão", ou ainda "Mulher é atropelada e fica na merda".
Bem, podem calcular o meu desespero.
Não é para menos.
Então, despachei-me a apanhar os benditos dejetos caninos, aflitíssima, com o coração nas mãos, mesmo a tempo de salvar a minha vida, e segui, contente e feliz, pela rua fora; afinal de contas, tinha motivos mais que suficientes para estar feliz: tinha sacos para cocós de borla e não tinha sido atropelada; a vida não podia ser mais perfeita!
Caminhei, então, com a cadela ao meu lado e o saco de cocós na mão à procura de um caixote do lixo para me ver livre daquele empecilho malcheiroso.
Eu, a bicha e os cocós, pelas ruas e ruelas de Armação de Pêra, de férias, sem preocupações.
Parecia o cenário ideal.
Mas, na verdade, algo parecia não estar a correr assim tão bem.
Caminhei cinco minutos seguidos sem encontrar um único caixote do lixo.
Cinco minutos a bom caminhar!
Comecei a sentir-me ridícula.
Para ser sincera, comecei a sentir que passeava os cocós pelas ruas, em vez do cão.
Que posição ingrata, pá!
E quanto à merda do caixote do lixo, nem vê-lo.
Continuei a minha saga em vão.
Passeei uns bons quinze minutos com a merda dos cocós na mão e caixote do lixo, nem vê-lo.
A situação começou a ficar descontrolada.
A porcaria dos cocós começaram a mexer com o meu sistema nervoso.
Caramba; eram eles ou eu!!
Juro, apeteceu-me atirá-los para o chão, assim, a frio, mas detesto poluição e isso estava fora de questão.
Ainda pensei regressar ao Apartotel com a cadela e a porcaria dos cocós, mas isso seria degradante. Imaginem só o exemplo que daria ao meu próprio filho, do género, iuuupiii, hoje, trouxe cocós para casa!! Sou uma mãe mesmo porreira!!!
Também não!
No desespero, virei-me para um senhor velhote que caminhava ao meu lado e que parecia olhar para os cocós de lado, altamente desconfiado, e perguntei-lhe - Não existe um único caixote do lixo em Armação de pêra?
Ao que o senhor me indicou um caminho, que levou mais cinco minutos a percorrer, com caixotes de lixo a dar com pau (nas proximidades, só havia dois sítios com caixotes do lixo).
Ainda caminhei com os cocós, lado a lado, durante mais algum tempo que me pareceu uma eternidade e, finalmente, soltei-os no sítio certo.
Conclusão: cheguei a casa praticamente com uma ou duas insolações no lombo, uma bicha exausta, exposta ao calor algarvio da hora de almoço e sem cocós, felizmente, sem cocós.
Se alguém tiver conhecimentos em Armação de Pêra, por favor, passem a palavra, para não se verificarem mais situações deste género.
Tenho dito.

17 de julho de 2017

os meus cinco minutos # 14

A pequena Maria tem doze anos e está na merda.
Está na merda, pois a mãe pô-la de castigo e tirou-lhe o telemóvel.
Nada no mundo pode ser pior do que nos tirarem o telemóvel!
Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!
Vvvvvvvvvvv!!
Pppppppppp!
Rrrrrrrrrrrrrrrrr!
Não é justo!
Toda a nossa vida está lá!
Está lá a nossa turma inteira, o nosso melhor amigo, o cão, o gato, os concertos, as férias.
Tudo!
Tiraram-lhe o telemóvel sem lhe pedirem autorização e tiraram-lhe um pedaço de si.
Tiraram-lhe o telemóvel, porque disse asneiras (mas todos os meus amigos dizem asneiras!) porque mentiu (vá lá, quem não mente???!!), porque andava a trocar mensagens com rapazes que nem sequer conhecia (e isso é crime???).
Mas a Maria tinha deixado de ser a Maria há muito.
Já não falava com os pais, já não brincava com os amigos, já não cantava, nem lia, nem jogava, nem sorria.
Vamos lá dar o telemóvel à Maria, para saber que confiamos nela.
Vamos lá dizer à Maria que gostamos dela e a amamos e que tudo vai ser como era dantes.
Vamos lá esquecer o assunto e dizer que temos orgulho da Maria, mesmo quando não arruma o quarto e não tira boas notas.
E a mãe voltou a dar-lhe o telemóvel.
Toma lá!
Voltou a dizer que a amava.
Amo-te!
Voltou a confiar nela.
Confio em ti!
E a Maria esqueceu-se de tudo.
A Maria voltou a dizer asneiras para ser fixe, a Maria voltou a falar com o António que não conhecia, pois ele dizia-lhe que era bonita e ela queria tanto acreditar, a Maria voltou a trair a melhor amiga, porque estava apaixonada pelo namorado que, afinal de contas, coitado, amava as duas ao mesmo tempo e não tinha culpa disso, e tudo voltou ao mesmo.
Porra para os telemóveis que levam as Marias de nós!

17 de junho de 2017

os meus cinco minutos # 13

No meu trépido casulo de conhecidos e amigos e colegas e alunos vou tendo contacto diário com indivíduos de todas as faixas etárias, etnias e maneiras de ser e pensar distintas.
Confronto-me com pessoas inteligentes, profundas e interessantes, pessoas menos interessantes, pessoas tolerantes e outras que viram a cara e cerram os dentes à diferença. 
A propósito disso mesmo, da diferença, é habitual dizerem-me que me visto assim, de forma diferente.
Talvez seja um elogio; nunca perdi muito tempo a pensar nisso, pois sermos todos iguais é algo enfadonho e monótono e inequivocamente entediante.
Ainda no outro dia, ao comentar uma foto de um blog muito conhecido em Portugal, alguém referiu isso mesmo, que me visto de forma singular. 
Claro que sim. 
Ainda bem que sim, pois gostar de moda é isso mesmo.
Gostar de moda não é, de todo, sinónimo de vestir bem; bem, no sentido de ser igual aos outros, à grande massa de seres vivos pensantes, ou ao que é socialmente imposto e tabelado em praça pública. 
Se quisesse vestir-me bem, vestia uma camisa branca, uns jeans justos e uns stilettos todos os dias da minha vida. 
Gostar de moda não é isso. 
Gostar de moda é não ter medo de arriscar. 
É criar.
É não nos importarmos minimamente com o que os outros pensam. 
Gostar de moda é ter atitude. 
É pegar numa criação alternativa, em bruto, de Gucci ou Dior, diretamente de um desfile, e não esperar que sejam os outros a vesti-la. 
É arriscar e usá-la na calçada portuguesa, sem meias medidas. 
Se um blogger não fizer isso, vai ser apenas mais uma pessoa a vestir-se bem e o mundo está irremediavelmente cheio de pessoas a vestirem-se bem...  
Onde está a piada nisso? 
Nem sequer faz sentido.
Não é suposto os bloggers de moda adiantarem tendências, criarem, ousarem?
Não me visto bem, nem é minha intenção fazê-lo. 
A minha intenção é divertir-me e, se inspirar alguém pelo caminho, a ir contra a corrente, a ser diferente por dentro e a ver-se por fora, tanto melhor.

6 de junho de 2017

os meus cinco minutos # 12

Hoje de manhã, saí do carro carregada de livros, como, aliás, todos os dias. Sentia o corpo pesado como chumbo. Era o manual x, era o caderno y, eram as inúmeras fotocópias soltas, devidamente ordenadas, que os livros engoliam no seu âmago como uma grande dentadura branca e desalinhada. E depois era tentar sair do carro, equilibrar tudo na mão, os livros, a mala, o estojo, a garrafa de água, trancar a porta e procurar a chave da escola entre porta-moedas, telemóveis, pacotes de bolacha, agendas e maquilhagem. Afinal de contas, no meio de tanta tralha, sinto que nunca deixei verdadeiramente a escola, por uma razão ou por outra.
Nisto, uma rajada de vento inusitada, daquelas que nos apanham irremediavelmente desprevenidas e nos reviram as golas e os cabelos e os casacos, fez estremecer as fotocópias adormecidas nos livros, dezenas delas!, que, esbaforidas, conseguiram escapar e voar, num magote, para a estrada. Uma nuvem branca e compacta foi elevada no ar e arremessada em todas as direções, em tiroteio. 
Um carro que por ali passava parou; se não parasse, ficaria sem as minhas fichas e o meu trabalho.
Aqueles segundos pareceram-me horas irremediáveis. 
Seria impossível reaver tudo. 
Então, um senhor e uma senhora dos seus vinte e muitos anos saíram da parte de trás do carro, que continuava parado no meio da estrada. 
Sem me dizerem nada, correram para apanhar as minhas folhas, uma a uma, na beira da estrada, ao longo de muitos metros de asfalto e debaixo dos carros estacionados. 
Correram. 
Baixaram-se. 
Esticaram-se. 
Na realidade, quase se deitaram para chegar a todos os sítios e para me entregarem todas as folhas, uma a uma, em mão.
Eram minhas, as folhas. Não deles.
Agradeci.
Claro.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Já repararam que temos o poder de mudar o dia de alguém? 

9 de abril de 2017

os meus cinco minutos # 11

Aqui está o poema que vos prometi de Alexandre O'Neill, O poema pouco original do medo.

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
        (assim assim)
escriturários
        (muitos)
intelectuais
         (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


*


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos a ratos

Sim
a ratos


Alexandre O'Neill in Abandono Viciado

Apenas no TEDxOporto ouvi um excerto deste poema pela primeira vez.
E ainda bem, pois cheguei a casa e quis lê-lo todo, de fio a pavio.
Devorá-lo, até.
Até me tocar na alma, que mo tocou sobejamente.
Julgo que todos nos identificamos com ele, de uma forma ou de outra.
Mais dramática ou menos dramática.
No contexto do terrorismo que tem assolado o mundo nestes últimos tempos ou, de forma mais pacata, apenas nos nossos "eus", nas nossas vidas e nas nossas imediações, todos já sentimos este medo voraz que vem e nos abocanha e nos engole e nos toma como seus.
O medo é rei e senhor.
Tem tudo.
É omnipotente e omnipresente.
Está lá, em todo o sítio e a toda a hora, de atalaia, na porta dos nossos muros.
Tem sentidos no sentido da nossa existência.
Vive e respira.
É autosuficiente.
É autosuficiente e manifesta-se nas nossas fragilidades mais acutilantes.
Afinal de contas, até os heróis têm medo, caramba!
É um crescendo que vem e que rouba e que leva e que arrebata, rato esse, que rouba, ri, rouba, rói e leva tudo e não nos deixa nada.
Sim
nada

8 de março de 2017

os meus cinco minutos # 10

Hoje de manhã, fui à Segurança Social.
Precisei de assinar uns documentos e lembrei-me de que é o Dia da Mulher.
Comentei-o, entre mulheres, e uma responde-me assim:
É um dia como os outros. Venho trabalhar e venho...
Mas é uma data histórica, respondi-lhe, indignada.
É uma pena estarmos no século XXI e termos de ser feministas, pois, se não o fôssemos, era sinal de que não havia diferença de género.
À senhora da Segurança Social deve ser-lhe igual ao litro ter ou não direito de voto, ou poder receber um salário justo pelo trabalho que desempenha, quer tenha nascido com um pénis ou uma vagina.
É uma pena haver seres humanos, homens ou mulheres, não importa!, que não dão valor a quem perdeu a vida a lutar por nós, Mulheres.

18 de fevereiro de 2017

os meus cinco minutos # 9

Costumam dizer que o tempo, louco, espavorido, passa a voar.
Mas não passa a voar, não.
Que tolice!
Mesmo quando olho para o Bernardo, não penso que o tempo passa a voar.
Levou imenso tempo esperar que as malditas cólicas passassem, quando era bebé, os oh, oh, oh, já passa!, que fomos desfiando e cantando, com ele nos braços, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo; que caminhasse de uma vez, que nunca chegou a gatinhar sequer, que não esteve para aí virado; que largasse as fraldas e o biberão; que dormisse sozinho no quarto, como um homem; que aprendesse a ler e a escrever.
Ufa!
Levou tanto tempo, caramba!
Porque eram expectativas.
Umas atrás das outras.
Quase apetecia riscar traços na parede, correspondentes ao número de dias que teimavam a passar, palermas.
Tudo levou o tempo certo.
Tudo.
E foi tão bom vê-lo crescer!
Foram as pequenas conquistas que nos deixaram de sorriso nos lábios e nos fazem, hoje, recordar.
Há pouco, estava a olhar para as paredes do meu quarto e perdi-me nas pinturas que a criança foi gatafunhando com o passar dos anos e que me foi oferecendo.
Quando andava na pré-escola.
Ou quando andava na escola primária.
São só três, as pinturas em tela, mas são um pedaço de mim, já, e emudecem-me e deixam-me a alma intrépida.
Agora?
Agora, claro, vai custar imenso tempo a passar, outra vez, que o tempo não voa!, até que receba mais uma; se é que recebo mais uma, pois os garotos crescem e, não sei lá bem porquê, deixam de querer desenhar e pintar e perder tempo e preferem comprar-nos coisas que acham que nos fazem mais falta.
Que tolos que são os garotos.


(respeitando a ordem cronológica)

30 de janeiro de 2017

os meus cinco minutos # 8

Ontem, encontrei uma pessoa que foi muito importante para mim.
Olhámo-nos, incrédulas, e demos um abraço apertado que fez o tempo estreitar-se ali, até caber na algibeira.
Já não nos víamos há anos!
Não sei quantos, mas há anos.
Quando frequentei o décimo segundo ano, mudei de escola durante o ano letivo e acabei por perder matéria.
Então, os meus pais puseram-me numa explicação de Literatura Portuguesa.
Não sei como cheguei a este contacto, mas tive o privilégio de conhecer a professora Helena Aleluia. Era uma senhora muito nova que me ensinou muito do que sei ainda hoje. Posso mesmo dizer que me ensinou a escrever "a sério".
Quando somos mais novos, escrevemos e não pensamos bem na forma como estruturamos as ideias ou o texto...
Punha-me à frente provas de exame e, durante duas horas, escrevia sem parar, o mais rápido que podia, até me doer a mão.
O meu raciocínio fluía e a caneta tentava acompanhá-lo.
Se errasse, voltava a escrever novamente, sem erros; se não errasse, voltava a escrever, até ficar perfeito.
Depois, a professora Helena marcou-me, inquestionavelmente, a nível humano.
Conversávamos muito.
Aquelas duas horas passavam a voar!
Um dia, perguntou-me se a podia ajudar a fazer embrulhos.
Era quase Natal.
Juntas, embrulhámos imensos brinquedos.
Ia a um orfanato de rapazes oferecer os presentes e perguntou-me se queria acompanhá-la.
Sem pensar, disse imediatamente que sim.
Foi um  momento que me marcou bastante.
Chegámos ao orfanato, no Bom Sucesso, naquela altura do dia quando arrefece e se torna quase noite.
Um magote de cabecitas ávidas debicavam-nos, em bicos de pés, atentas, junto a um edifício escuro que mal se vislumbrava.
Eram crianças pequenas. E eram adolescentes, mais crescidos.
Correram até nós como o vento.
Mais até mim; não sei, talvez por ser mais nova.
Abraçaram-me e agarraram-me de tal forma que me aleijaram e tiveram de os afastar.
Depois, os mais pequenos começaram a abrir as prendas numa euforia desgraçada.
Ficaram tão felizes que todos os Natais de todos os anos pareciam ter entrado ali, por aquela portinha adentro!
Os mais velhos abriram os presentes mais tarde, quando acharam que já não tinha mal, pois UFA! não estava ninguém estava a vê-los.
Recordo-me, particularmente, de um menino pequenino.
Não sei que idade teria; talvez quatro, cinco anos.
Era tão pequenino!, agora que me lembro.
Sei que olhava para mim, nervoso, com uma felicidade tremenda que rasgava o silêncio entre nós.
Ria-se muito e repetia vezes e vezes até lhe perder a conta:
"Sabes, eu estou aqui, mas tenho mãe.
Ela vem cá ver-me, um dia.
Não sei quando, mas vem.
Não tem tempo.
Mas sabes, eu tenho mãe."
Obrigada, Professora Helena, por tudo; também por estas lembranças.

24 de janeiro de 2017

os meus cinco minutos # 7

Na semana passada, foi proposto a uma aluna minha do oitavo ano um trabalho de Português acerca de moda. 
Pediram-lhe que observasse imagens de personalidades da Corte Portuguesa dos séculos XVII e XVIII, nomeadamente, D. João IV (1604-1656), Maria I de Portugal (1734-1816) e Dona Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon (1775-1830), e, num texto expositivo, descrevesse a moda atual, tendo em conta o seguinte comentário:
"A partir do século XIX, o valor da qualidade das peças de roupa foi sendo, progressivamente, substituído pela importância da quantidade. Além disso, uma moda única foi ultrapassada pela aceitação de uma moda plural, independentemente dos estratos sociais e culturais."
Inicialmente, admito, fiquei surpresa por este tema - a moda -, aparentemente banal e destituído de qualquer interesse histórico, económico, social ou político, poder, eventualmente, ser discutido numa aula de Português. 
Mas reconsiderei em segundos e achei que fazia todo o sentido, pois a moda já não é estanque como era; 
vazia; 
oca; 
apenas para elites.
Obviamente que me passaram pela cabeça mil e uma ideias e formas de poder explorar este tópico, ainda para mais, agora, que terminei de ler o Courrier Internacional e pude refletir acerca do papel da mulher ao longo do tempo, do seu legado em determinadas áreas específicas, passando, inequivocamente, pelo universo da moda.
Apreciada e sublimada, sobretudo, após os Descobrimentos, com a importação de sedas do Oriente, a moda, enquanto fenómeno de catalogação de massas, destinava-se apenas à Corte e pouco mais.
Contudo, esta arte de rua, à semelhança dos adornos indígenas, foi evoluindo, metamorfoseando-se, enchendo-se do ego de cada um, plastificando-se, moldando-se e ganhando um papel algo preponderante na caracterização da nossa personalidade, num enquadramento social.
Muitas vezes associada a estados clínicos obsessivos, a moda descartável dita a relação que cada indivíduo mantém com a sociedade e com a gestão do dinheiro na alimentação de atitudes compulsivas.
Quer queiramos quer não, a moda acaba por nos definir, individualmente, enquanto seres pensantes. A nossa personalidade é refletida na roupa que usamos; ainda que refletamos uma imagem simples, de não-moda, ou não-comunicação; ainda que veiculemos a mensagem de desvalorização da aparência; esta é também uma mensagem.
Num mundo ávido de informação e em constante mutação, a moda segue, invariavelmente, as tendências do momento. 
Todavia, a importância da quantidade em detrimento da sua qualidade é cada vez mais notória. A moda torna-se, assim, precária e descartável, à semelhança dos valores perpetuados por uma sociedade volátil e insaciável. 
O acesso rápido e fácil à informação e às tendências, através das redes sociais e, nomeadamente, dos bloggers, faz com que tudo seja vivido ao segundo. 
Os desfiles de moda acontecem quase em direto e, por isso, a distância e os timings são esbatidos e o mundo tem vindo a tornar-se mais pequeno. 
Neste sentido, a variedade de escolha e a criatividade são, pois, francamente estimulados e os ícones de moda deixam de ser meia dúzia para serem centenas. 
Embora, de facto, muitas vezes, no mundo atual, a qualidade seja posta de parte relativamente à quantidade, na minha opinião, a moda nunca comunicou tanto e com tanta qualidade como agora. 

18 de janeiro de 2017

os meus cinco minutos # 6

Na segunda feira, fomos assaltados.
Estou triste, revoltada e impotente.
Sinto um nó na garganta.
É quase impossível imaginar que alguém tenha entrado em nossa casa, tenha mexido nas nossas coisas, chocalhado o recheio das gavetas, dos armários, das estantes e deixado tudo em pantanas.
É horrível chegarmos a casa e vermos o chão amontoado de tudo e objetos caídos e partidos, e ter a noção, nesse exato instante, de termos sido assaltados.
Ficamos incrédulos e sem saber o que fazer.
O nosso cão que, sempre que chegamos, dá sinal e ladra e salta e chama por nós, desta vez, não está ali e não sabemos o que pensar ou o que sentir.
Não sabemos sequer se o assaltante ainda se encontra em casa.
Ficamos desorientados.
E, então, começamos a espreitar debaixo das camas e atrás das portas, para ver se está lá alguém escondido e suspiramos de alívio quando reparamos que, ali, naquele instante, naquela cama e atrás daquela porta não está lá ninguém.
Mas ainda faltam mais camas e muito mais portas.
Depois, temos de atravessar o corredor e percorrer as divisórias, uma a uma, palmilhá-las com o coração acelerado, a bater muito rápido.
Tão rápido que parece que vai saltar pela boca.
Mas não salta.
Então, chegamos ao nosso quarto e não parece o nosso quarto.
Encontramos uma pilha de roupa esventrada em cima da cama.
Caixas em cima da cama.
Bugigangas em cima da cama.
Pegadas de sapatos sujos em cima da cama.
Vernizes partidos no chão.
O guarda-fatos revirado e despido.
E as gavetas abertas.
Que estavam fechadas antes de sairmos de casa.
E agora estão abertas.
E faltam coisas lá.
Dá-nos um nó na garganta.
De repente, sentimos um movimento estranho na casa de banho e sentimos que está lá alguém.
Temos medo, mas, sem saber como, conseguimos arranjar forças e abrimos a porta.
Afinal, não é o assaltante.
Não, não é.
É o cão que trancaram ali e, graças a Deus, está bem.
É a cadela.
É a nossa Ippon.
Que está assustada.
Que treme por todos os lados e que se atira a nós, de contente.
Está feliz por nos ver e parece dizer "finalmente".
Realmente, é impossível descrever o que vimos e o que sentimos.
Precisava de desabafar isto convosco.